0# CAPA 6.5.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
Edio 2424  1no 48  n 18
6 de maio de 2015

[descrio da imagem: foto do rosto do Juiz Mora. Ele olha em frente, expresso sria]
O JUIZ MORO V MAIS LONGE
Por que a soltura, pelo STF, dos empreiteiros presos na Lava-Jato no representa o fim da esperana dos brasileiros de que corruptos vo para a cadeia.

[outros ttulos: parte superior da capa]
A CHUVA DE MSICA...
...e de filmes que cai das nuvens digitais  um sonho que se tornou realidade.

E AGORA, TOFFOLI?
A Polcia Federal interceptou mensagens que mostram proximidade entre empreiteiro da Lava-jato e o ministro do STF.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 6.5.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  A CONSTITUIO E AS LEIS
     1#3 ENTREVISTA  RICHARD DAVENPORT-HINES  KEYNES NO ERA KEYNESIANO
     1#4 CLAUDIO DE MOURA CASTRO  O PIOR ENSINO MDIO DO MUNDO?
     1#5 LEITOR
     1#6 MALSON DA NBREGA  A INCRVEL RESISTNCIA  TERCEIRIZAO
     1#7 BLOGOSFERA

1#1 VEJA.COM

O BIG DATA EM FAVOR DA ARTE
A era do streaming (veja reportagem na pg. 80) lanou um novo desafio aos artistas. Como monitorar a reproduo pirata de seus videoclipes no YouTube, o nmero de downloads de suas msicas ou quantas vezes suas faixas foram reproduzidas no Spotify? "A indstria fonogrfica  historicamente opaca e continua a ser assim. H muito medo entre artistas de que eles no estejam sendo pagos. Eu digo: 'Vocs esto certos, esto sendo enganados'", conta Willard Ahdritz, fundador da inglesa Kobalt. Sua empresa usa big data para garantir que os direitos autorais de seus clientes sejam respeitados. A tecnologia desenvolvida pela Kobalt detecta automaticamente quando uma msica de seu rol de artistas, que inclui nomes do calibre de Paul McCartney,  ouvida em sites, apps ou rdios, mesmo quando so arquivos ilegais. Aps detectada a reproduo, a empresa vai cobrar pelos direitos  ou deletar um vdeo ilegal no YouTube. 

AONDE A CRISE AINDA NO CHEGOU
Enquanto segmentos da indstria e do setor de servios anunciam demisses e prevem tempos difceis, a rede de cafeterias Starbucks passa  margem da crise. Perto de inaugurar sua centsima loja no pas, a empresa prev crescimento de at 7% em vendas neste ano. Em entrevista ao site de VEJA, o presidente da subsidiria brasileira, Norman Baines afirma que a Starbucks descarta demisses ou reduo no ritmo de investimentos. A estratgia  mirar o interior do Brasil. "O cenrio desfavorvel impacta o bolso das famlias. Mas  justamente neste momento que temos de dar nosso melhor para fidelizar os clientes." 

MQUINAS NO COMANDO
Robs voltam a tirar o sono da humanidade em uma nova leva de superprodues de Hollywood. Neste ano, quatro filmes importantes tratam da temtica: Chappie e Vingadores: Era de Ultron, ambos em cartaz, O Exterminador do Futuro: Gnesis, reboot da franquia de Arnold Schwarzenegger, e o thriller psicolgico Ex Machina, que recebeu boas crticas nos Estados Unidos. Reportagem no site de VEJA mostra que o medo e a curiosidade a respeito do dia em que robs podero agir por conta prpria so o grande fascnio dessas tramas.

DE MDICO A PACIENTE
O cardiologista Roberto Kalil, mdico de poderosos da poltica, como a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e os senadores Jos Serra e Acio Neves, nunca cuidou bem da prpria sade. Pois agora, a uma semana do casamento com a endocrinologista Claudia Cozer, ele deixou de ter uma vida sedentria, emagreceu e passou a usar um remdio experimental para controlar o colesterol alto. Em entrevista ao site de VEJA, Kalil fala da importncia da preveno - e de como flagrou, em si prprio, os comportamentos que pem a sade em risco. "A chegada dos 50 anos me fez perceber que eu poderia infartar se continuasse com os mesmos hbitos", diz ele. "Seria um vexame."


1#2 CARTA AO LEITOR  A CONSTITUIO E AS LEIS
     As leis so instrumentos do Estado para controlar a sociedade, enquanto a Constituio  o instrumento da sociedade para controlar o Estado. Portanto, quando os ministros da corte constitucional brasileira, o Supremo Tribunal Federal (STF), se renem para decidir sobre a aplicao de leis em casos particulares, no fundo eles esto avaliando se o Estado no est abusando de seus poderes sobre todas as pessoas que compem a sociedade. Essa noo  fundamental para que no se caia na armadilha de elogiar o STF depois de decises que nos agradam e critic-lo quando, como ocorreu na semana passada com a soltura dos empreiteiros presos na Operao Lava-Jato, os ministros parecem ter agido contra os interesses dos brasileiros. 
     Poucas horas aps a Segunda Turma do Supremo ter concedido habeas corpus, na tera-feira passada, a nove presos no Paran, a opinio pblica explodiu de indignao nas redes sociais, em que se podiam contar nove censuras ao STF para cada opinio favorvel  deciso. Muitas das pessoas que ficaram descontentes viram na soltura dos acusados o prenncio da impunidade e, mais uma vez, o melanclico triunfo dos corruptos sobre os homens de bem. Uma reportagem desta edio de VEJA mostra que no  bem assim. Priso preventiva no  punio. Seu relaxamento, portanto, nada tem a ver com impunidade. Os processos contra os acusados continuam em sua fase final na corte do juiz Srgio Moro, que os sentenciar pesadamente, como permitem concluir as montanhas de provas reunidas contra eles e seus cmplices nas estatais e nas altas esferas polticas. 
     A reportagem enfatiza o corajoso e tecnicamente correto papel do juiz Moro em sua tentativa de fazer da Lava-Jato a verso brasileira da Operao Mos Limpas, a investigao de grande envergadura que, nos anos 1990, reduziu fortemente a influncia da mfia nos negcios de Estado na Itlia. Moro prendeu, e o STF soltou. Isso, porm, no significa que o bravo juiz foi censurado pelo tribunal superior. Nada disso. Amparado em sua leitura do artigo 312 do Cdigo de Processo Penal, o juiz Moro queria manter os acusados presos por mais tempo, at que desse por concluda, no jargo jurdico, a "instruo do processo". Trs dos cinco ministros integrantes da Segunda Turma do STF entenderam que a priso preventiva deles, que j durava quase seis meses, passara a conflitar com o direito constitucional fundamental de ir e vir. Quando a lei (instrumento do Estado) bate de frente com a Constituio (instrumento da sociedade), prevalece a Constituio. Por isso, mesmo que, emocionalmente, seja doloroso engolir, a Justia foi bem servida tanto na priso quanto na soltura dos acusados. 


1#3 ENTREVISTA  RICHARD DAVENPORT-HINES  KEYNES NO ERA KEYNESIANO
O historiador ingls explica por que o economista John Maynard Keynes, a quem dedicou uma densa biografia,  maior e mais complexo do que todas as interpretaes de seu pensamento.
ANA CLARA COSTA

O britnico John Maynard Keynes (1883-1946)  um dos tits da histria da economia. Para o historiador ingls Richard Davenport-Hines, contudo, isso  pouco para defini-lo. Com sua inteligncia analtica, seu amor pela arte, sua habilidade social e sua capacidade para influir na poltica, ele foi um "homem universal". Esse  o ttulo da biografia que Davenport-Hines acaba de publicar: The Universal Man: The Seven Lives of John Maynard Keynes. O autor explorou os vastos arquivos pessoais de Keynes, depositados na Universidade de Cambridge, para explicar os motores de sua obra. E afirma que Keynes  maior que as interpretaes correntes de seu pensamento. "Ele anteviu os equvocos que viriam e disse: 'Chamo-me Keynes, mas no sou keynesiano'." 

Quase setenta anos depois de sua morte, Keynes ainda merece um papel central no pensamento econmico? 
Sem sombra de dvida. Houve um perodo, nos anos 80 e 90, em que se formou uma falsa imagem de Keynes como inimigo do capitalismo. Isso  um completo nonsense. Posso afirmar, pois li minuciosamente tudo o que ele escreveu, que Keynes dirigiu seus esforos para a melhora do capitalismo, no para a sua destruio ou "superao". A crise de 2008 permitiu desfazer um pouco os equvocos e mostrou como os problemas que Keynes procurou abordar ainda so os problemas do nosso tempo. Porque aquela foi uma crise de excessos, de "exuberncia irracional", como disse o ex-presidente do banco central americano Alan Greenspan, e Keynes empenhou-se no sentido de salvar o sistema de seus paroxismos de instabilidade. Ele disse, no incio do sculo passado, que a regulao financeira tinha um papel importante a desempenhar, e que a regulao global era mais necessria para a estabilidade do capitalismo do que qualquer mecanismo nacional. E tudo o que aconteceu em 2008 mostrou a importncia dessa discusso. Keynes  um autor fundamental. 

Keynes era um economista de esquerda? 
Era um elitista que nutria uma admirao romntica pela aristocracia e por tudo o que o dinheiro podia oferecer. Sempre foi, na verdade, um antimarxista. Para ele, as ideias de O Capital eram rgidas e ultrapassadas. Nos anos 1930, dizia: "Como posso aceitar uma doutrina que se impe como bblia acima de qualquer crtica, um livro de economia obsoleto sem nenhuma possibilidade de aplicao no mundo moderno?". Suas visitas  Unio Sovitica deixaram nele uma impresso desagradabilssima. Keynes acreditava no individualismo, na competio, na liberdade, nas artes. No na burocracia, no comunismo e na regulao excessiva da economia, ou de qualquer outro aspecto da vida. 

Keynes era um intervencionista? 
Ele acreditava nos benefcios da poltica econmica. Mas tambm dizia que ela deveria ser alterada a cada quinze ou vinte anos. No achava que a poltica econmica poderia ser permanente, porque as circunstncias mudam e as expectativas das pessoas tambm. Ele no acreditava em pensamento esttico em nenhum aspecto. No fim da vida, dizia: "Eu me chamo Keynes, mas no sou keynesiano". Tinha conscincia de que estava em curso uma interpretao equivocada de seu pensamento. E, aps sua morte, isso de fato aconteceu. Na Europa e nos Estados Unidos, atribuem a ele a paternidade das polticas de expanso do dficit pblico, algo a que Keynes se opunha de forma contundente. Ele era extremamente contra dficits de longo prazo. Dizia que governos podiam se permitir um pouco de dficit para combater uma crise pontual, em especial ao injetar dinheiro na economia para reduzir o desemprego. Pois ele acreditava que o desemprego era o grande mal, o grande inimigo do potencial humano. Ento defendia dficits de curto prazo em situaes emergenciais. Mas definitivamente era contrrio a governos, empresas e famlias contrarem dvidas que jamais conseguiriam pagar. 

Keynes no foi s um terico, ele se aproximou do poder. Keynes gostava de poltica? 
Ele conviveu com polticos poderosos. Mas no se identificava com esse meio, no gostava do relacionamento com os polticos. Em muitas anotaes e artigos, descreve-os como entediantes e intelectualmente desqualificados para o cargo que exerciam. Acima de tudo, achava a maior parte deles hipcrita e sem convices reais, o que era muito incmodo para algum que tinha uma paixo intelectual pela verdade. Curiosamente, Keynes conseguiu transitar num ambiente de hipocrisia sem se render a ela. Era de uma sinceridade implacvel. 

Como Keynes combinou as qualidades do acadmico com as do homem de ao? 
Eu diria que ele foi o arqutipo do intelectual pblico. Era slido na teoria, mas tambm conseguia navegar com segurana entre os polticos e fazer com que suas ideias fossem implementadas. Muitos grandes economistas serviram de consultores a presidentes americanos e lderes europeus, mas nenhum teve papel semelhante ao que Keynes exerceu no perodo entre as Grandes Guerras. Ele liderou a delegao britnica na Conferncia de Bretton Woods, em 1944, momento em que foram desenhados o Fundo Monetrio Internacional e o Banco Mundial. Vinha negociando e planejando a criao desses mecanismos globais desde o incio da II Guerra, porque estava determinado a reduzir a instabilidade, as crises, o desemprego e os impostos coletados para financiar armas antes da ecloso do conflito. Para Keynes, muitas das razes que levaram a Europa de volta s trincheiras eram econmicas, no polticas. E ele acreditava que, ao desenhar as bases para um capitalismo menos instvel, seria possvel evitar uma nova guerra como aquela que arrasava o mundo. Foi a figura intelectual dominante de Bretton Woods. Mais tarde contava, com ironia, ter agido durante o encontro como economista, financista, poltico, jornalista, publicitrio, advogado, funcionrio do governo  e profeta. Keynes passou muito mal durante a conferncia. Havia sido diagnosticado pouco tempo antes com um problema cardaco irreversvel e sofreu vrios colapsos. Mesmo assim, conseguiu sair de l com seus planos aprovados. 

O que levou Keynes  economia? 
Acho que houve dois motores: um certo sentimento de nostalgia e a crena na necessidade de viver uma vida plena. Keynes descrevia os anos que antecederam a I Guerra como um paraso perdido para ele e para os europeus. Queria uma nova belle poque, um mundo de prosperidade, elegncia, segurana e valorizao das artes. Keynes amava a beleza e o prazer. E desejava que todos tivessem acesso a essas coisas, tanto assim que dedicou um tempo precioso a conseguir dinheiro para criar o Arts Council e financiar a Royal Opera House, a National Gallery e a Portrait Gallery. 

O senhor est dizendo que o Tratado sobre a Moeda foi escrito para devolver o mundo  belle poque? 
 mais ou menos isso se estamos falando das motivaes profundas, da maneira como a obra de Keynes se relaciona com a sua histria de vida e a sua personalidade. Keynes participou ativamente do grupo de Bloomsbury, formado por artistas e escritores como Virgnia Woolf. 

Qual foi a importncia dessa convivncia para Keynes? 
Era um ambiente estimulante para ele, embora todos os artistas fossem menos inteligentes que Keynes. Eram criativos, no intelectuais. Creio que um elemento-chave que Keynes exercitou com o grupo de Bloomsbury foi a arte de flertar. Ele sempre se achou feio. Para compensar isso, foi charmoso e cativante. Gostava muito de flertar com todos, no necessariamente no sentido sexual. Ele desenvolveu a capacidade de dominar as conversas como nenhuma outra pessoa naqueles tempos. Nunca foi arrogante. S na velhice surgiu nele um trao de impacincia. No suportava mais conversar com pessoas de mentalidade lenta, convencionais demais, que lanavam mo de clichs para justificar tudo. 

Keynes foi bissexual. Acredita que isso tambm influenciou seu trabalho intelectual de alguma forma? 
Sim, de duas maneiras. Ao buscar parceiros na juventude, Keynes circulou entre rapazes pobres. E ampliou sua experincia social. Ele teve conscincia de como as pessoas viviam, algo que o jovem tradicional que saa da universidade e, em seguida, se casava no tinha. H outra coisa talvez at mais importante. Ao fim dos 30 anos, ele se apaixonou pela bailarina russa Lydia Lopokova. Casou-se com ela mesmo que muitos amigos avaliassem a mudana como uma espcie de traio. Mas o casamento foi tremendamente bem-sucedido, em todos os sentidos. Ele foi muito feliz. E, pelos relatos que se tem, foi a mudana sexual que o transformou intelectualmente. Quando se casou, sentiu-se livre para abandonar premissas da economia clssica que ainda constrangiam seu pensamento.  

As leis da Inglaterra puniam a homossexualidade, e isso destruiu personalidades como o escritor Oscar Wilde e o matemtico Alan Turing. Em algum momento Keynes correu esse mesmo risco? 
Wilde bebia o tempo todo e sempre se envolvia em situaes constrangedoras. Era um homem que praticava a autodestruio. Keynes teve, sim, problemas com chantagem. Mas, exceto quando muito jovem, ele acatou um conselho comumente seguido pela realeza e que garantia que seus romances homossexuais fossem mantidos em sigilo: "Nunca se envolva com algum que tenha menos a perder com essa relao do que voc". Por isso, sempre que era chantageado, terminava por no ceder. E, para a sua sorte, a questo de sua sexualidade jamais foi, de fato, discutida entre as pessoas preeminentes de ento. Alm disso, como Keynes no era religioso, no havia nele sentimento de vergonha ou culpa. Ele via as coisas de forma pragmtica. Como eu disse, acreditava em prazer, fosse sexual ou artstico. 

Por que ele fazia estatsticas sobre seus encontros? 
Porque ele queria que todo o submundo sexual em que viveu e ao qual poucas pessoas tinham acesso fosse um dia revelado. Guardou tudo, desde estatsticas que envolviam o nmero de parceiros por encontro at cartas trocadas posteriormente. Todo esse arquivo foi mantido mesmo depois de seu casamento. Ele achava que a lei que proibia a homossexualidade era estpida e que a opinio pblica sobre o tema era burra. Queria documentar como as pessoas viviam de verdade, apesar das convenes de seu tempo. 

A sexualidade lhe trouxe sofrimento em famlia? 
No h registros de que seus pais tenham tocado no assunto. Eles eram intelectuais e sempre foram adorveis, em especial para os padres em vigor. No era comum que os pais dialogassem com os filhos e os compreendessem. Isso fez com que Keynes tivesse autoconfiana e estabilidade emocional. Curiosamente, no apenas Keynes foi bissexual, mas tambm seu irmo e sua irm. Os trs acabaram se casando com pessoas do sexo oposto. Mas acumularam, durante a juventude, experincias com pessoas do mesmo sexo. Sua irm, Margaret, casou-se com o ganhador do Nobel de Medicina de 1922, Archibald Vivian Hill. Seu irmo, Geoffrey, foi um mdico respeitadssimo, um dos pioneiros da transfuso de sangue e do tratamento contra o cncer de mama. Ele  citado nos arquivos sexuais de Keynes. Geoffrey, sim, sofreu com isso. No queria de forma alguma que esses textos fossem enviados  biblioteca de Cambridge, mas no conseguiu impedir. Isso contribuiu para uma depresso que s se atenuou no fim da vida, quando eleja estava com mais de 85 anos. 

Abusa-se muito da palavra gnio. O senhor a aplicaria a Keynes? 
Sim. Keynes foi o ingls mais inteligente de sua gerao. Ele tinha uma capacidade analtica incomum, abordava os problemas por ngulos sempre novos e no receava mudar de ideia. Foi dono de um poder de persuaso poucas vezes visto na histria. 

1#4 CLAUDIO DE MOURA CASTRO  O PIOR ENSINO MDIO DO MUNDO?
claudiodemouracastro@positivo.com.br

     Do ponto de vista de suas regras e formato legal, no consegui encontrar um s pas com ensino mdio pior que o nosso. O modelo brasileiro gera pssimos nmeros. Enquanto o Chile universaliza esse nvel, no Brasil, menos da metade da coorte consegue complet-lo. Dos que iniciam o curso, s 40% o terminam. Para culminar, em vez de caminhar para a universalizao, nosso mdio encolhe! Vejamos por qu. 
     1- O mais odioso equvoco  impor o mesmo currculo a todos. Os futuros Machados de Assis tm a mesma carga de matemtica oferecida aos que sero engenheiros da Embraer. E esses ltimos, para entrar em uma boa faculdade, precisam brilhar em literatura. Nenhum pas do mundo civilizado deixa de reconhecer as diferenas individuais e oferecer cursos, currculos e escolhas de acordo com as preferncias e talentos de cada um.  
     2-  O excesso de disciplinas  assustador. So catorze as obrigatrias. Na prtica, os alunos podem ser obrigados a cursar dez, simultaneamente. 
     3- Transbordam os contedos das ementas, desde o incio da escolarizao. Com razo, os alunos reclamam da chatice crnica e da falta de proximidade entre o que  ensinado e o universo deles. No Brasil, rabeira no Pisa, no 4 ano primrio os alunos aprendem 27 tpicos de matemtica. Em Singapura, no topo do Pisa, so quatro! O aluno brasileiro ouviu falar de tudo mas no aprendeu nada. Aprender de verdade requer empapar-se do assunto, mergulhar fundo, praticar. Impossvel, com tanta matria para percorrer. No h tempo para aplicar o ensinado. Sugiro ao leitor dar uma olhada em um livro de biologia, para convencer-se do exagero. E, como pontifica David Perkins (de Harvard), s aprendemos quando aplicamos o conhecimento em situaes concretas.  
     4- Nas disciplinas mais crticas, h uma grande escassez de professores bem formados. De fato, as fragilidades e os equvocos das faculdades de educao esto entre os grandes culpados pelo desastre. Apesar disso, engenheiros, advogados e farmacuticos no podem ensinar matemtica, fsica ou qumica, embora conheam mais do assunto e tenham melhor desempenho em sala de aula do que grande nmero de professores com carteirinha. Disso sabem os cursinhos, livres para contratar e pagar regiamente a quem quiserem. 
     5- O tempo efetivamente usado para ensinar e aprender j comea estreito  por lei  e  ainda mais espremido pelas perdas de tempo nos horrios de aula. Segundo as pesquisas,  razovel supor que s a metade do tempo  usada para aprender. O resto se perde. E, como sabemos, quanto menos se estuda, menos se aprende. 
     6- Prevalece a indisciplina sistmica. Uma pessoa do Positivo perguntou aos alunos o que mais atrapalhava o seu aprendizado. A resposta unnime foi: a baguna dos colegas. Mas confundimos autoridade com autoritarismo, e os professores se sentem desamparados para impor a disciplina careta que existe em toda escola bem-sucedida. 
     7- Da forma como  usado pelas universidades pblicas, o Enem virou uma camisa de fora. Ao imporem notas nicas de entrada, elas impedem a diversificao do ensino mdio. Isso tudo sem falar das deficincias das sries anteriores, cujos ltimos anos compartilham os mesmos problemas do mdio. Ou seja, agravando o quadro, os alunos chegam despreparados. 
     Com isso tudo concordam pesquisadores e at ministros. O problema  que a engenharia da mudana est enredada. O Conselho Nacional de Educao nada faz. O Congresso s faz votar novas disciplinas, para agradar a seus grupelhos de eleitores (mais uma dzia de novas disciplinas foi proposta). Os ministros e os secretrios de Educao esto de mos atadas pelos lobbies e pela inrcia. Mas, como demonstram alguns estados, h mais flexibilidade na lei do que parece. Ou seja, falta ousadia. 
     Quando foi aprovada a LDB, um marco legal iluminado e flexvel, previ que, em pouco tempo, a sua regulamentao destruiria o esprito da lei. De fato, logo adquiriu um rigor cadavrico. Quase nada sobrou de sua versatilidade inicial. A maior vtima dessa desfigurao  o ensino mdio. A ao de foras descoordenadas criou um monstro, e no sabemos como descria-lo.
CLUDIO DE MOURA CASTRO  economista


1#5 LEITOR
LULA E A OPERAO LAVA-JATO
Na excelente reportagem "Os favores do empreiteiro" (29 de abril), consegue-se ver a que ponto chegou a promiscuidade das relaes entre polticos do PT e empresrios, principalmente empreiteiros.  claro que os favores prestados ao ex-presidente Lula, antes ou depois de realizados, tiveram como contrapartida vantagens muito maiores aos empresrios. E, como de costume, a exemplo da maxirreforma no stio de Lula relatada pelo engenheiro Lo Pinheiro, a escritura da propriedade est em nome de Jonas Suassuna e Fernando Bittar, que por "coincidncia" so scios de Fbio Lus da Silva, o Lulinha, filho do ex-presidente. Pelo jeito, o stio de Lula tem uma grande plantao de "laranjas". 
ANTONIO CARLOS ROSA 
So Paulo, SP 

J estava na hora de algum incluir o nome do ex-presidente Lula. Ficar por oito anos na Presidncia e nunca saber de nada era, no mnimo, incompetncia de Lula como presidente. 
VANTUIR RONALDO VIEIRA 
Canoinhas, SC 

A Operao Lava-Jato est, at o momento, limpando o caminho das formigas.  preciso pegar a "rainha" do formigueiro. Dessa forma teremos a casa limpa. 
JOO LUIZ ROSA 
Santo Andr, SP 

Essa ladainha de empreiteiros ameaando revelar as estripulias do ex-presidente Lula parece mais reprise de novela. Logo a turma do "deixa disso" entra em ao e o assunto esfria novamente. Para que a investigao chegue de fato ao topo da cadeia alimentar da corrupo,  preciso manter os suspeitos na priso e continuar seguindo o rastro do dinheiro. Os fatos j revelados so teimosos e evidentes. 
MARCOS A.L. SANTANA 
Palmas (TO), via smartphone 

Quero ver at onde vai a idolatria de Lo Pinheiro pelo 'chefe'. Ser que nada o far abrir a boca? 
ANGELA QUEIROZ 
So Paulo, SP 

SRGIO MORO 
Querem tirar o processo da Operao Lava-Jato das mos do juiz Srgio Moro ("Armadilha para Moro", Radar, 29 de abril)... Mas esse justiceiro ainda vai conseguir salvar o nosso pas. Moro, no desista! 
MRIO W. SCHROEDER 
So Paulo (SP), via tablet 

LYA LUFT 
O artigo "Tempos sombrios" (29 de abril), de Lya Luft, exprime o que sentimos quando vemos na imprensa as barbaridades cometidas e a situao do nosso povo, to maltratado. Nossa voz ecoa no vazio. Recorrer a quem? 
ANA MARIA GUERREIRO CONSTANTINO PELISSON 
Por e-mail, via smartphone 

No  de hoje que aprecio a coluna de Lya Luft, mas nesta semana me senti realmente representado. Tudo aquilo que penso e sinto foi apresentado com grande maestria no artigo. 
RONALD SEKKEL 
Indaiatuba (SP), via tablet 

Texto perfeito, que expressa com firmeza o atual clima de incertezas no Brasil. 
JOS LACERDA 
Campinas (SP), via tablet 

As mesmas aflies de Lya Luft, eu tenho no meu corao. No sabemos o que ser de ns e do Brasil nos prximos meses. 
CLUDIO RTOLO DE MORAES 
Florianpolis, SC 

BALANO DA PETROBRAS
O balano de 2014 divulgado pela Petrobras, com prejuzo bilionrio recorde,  um tapa na cara dos brasileiros ("A conquista da normalidade", 29 de abril). Qual precedente existe na histria mundial de uma empresa listada em bolsa, que j foi referncia internacional de competncia, colocar em seu balano perdas de 6,2 bilhes de reais referentes  corrupo? O Brasil est no fundo do poo da moralidade. 
ARNALDO L. CORRA 
Santos (SP), via tablet 

Marta Suplicy 
Sempre admirei a postura da senadora Marta Suplicy, embora nunca tenha sido seu eleitor. A entrevista de Marta a VEJA ("O PT traiu os brasileiros", 29 de abril)  muito esclarecedora, abrangente e tem respostas claras e contundentes como seu perfil. 
SIDNEY FAURY 
So Paulo (SP), via tablet 

Est claro que a sada de Marta do PT  a expresso de que foi acometida por uma revolta interna de quem foi preterida por outros algozes da partidalha. Que nenhum outro partido se engane... o PT continuar a correr em suas veias. 
MARIA INS PREVEDELLO 
Curitiba (PR), via tablet 

Marta sai do PT, mas deixa evidente que o PT no sai dela. Lamentvel! 
MANOEL ANTONIO ESTEVES RAMOS 
Santos, SP 

Marta est agindo como aquele covarde ex-capito italiano que abandonou seu navio  deriva. O certo seria Marta derreter junto com o PT. 
HUMBERTO LUIZ ROCCO 
Colorado (PR), via tablet 

Marta, s agora convenientemente, discorda da postura do partido e do bando. Os coerentes deixaram o barco no incio do governo Lula, quando os desmandos comearam. J sai tarde... 
JORGE AMORIM 
Macei, AL 

Ver o PT abraado a Jader Barbalho, Jos Sarney etc., e posteriormente a Paulo Maluf e Fernando Collor, j no seria suficiente para perceber que o partido havia abandonado seus ideais? Por que Marta no saiu? Resposta bvia: ainda estava inserida. O pior  que ela insiste em defender Lula, que nada mais  do que a essncia do PT. 
MANOEL OLIVEIRA DOS ANJOS 
Goinia, GO 

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO 
Maravilhoso o artigo "A desoras, desfeliz" (29 de abril), de Roberto Pompeu de Toledo. O prefixo "des" pe mesmo o mundo de cabea para baixo. J testemunhei um amigo ser "desconvidado" para uma festa de aniversrio. Foi incrvel... Fiquei envergonhada. 
CLOTILDE BELTRO DE LUCENA 
Por e-mail, via tablet 

No deslumbrante artigo, Roberto Pompeu de Toledo destrincha vocbulos e trabalha na descoberta de seus significados. A princpio, o texto parece desviar-se de um propsito, tornando-se prolixo; todavia mostra-se fascinante o prefixo "des" como centro da discusso. Desligado de qualquer crtica poltica, Pompeu fez-me pensar em como o Brasil se encontra em situao desconfortante e desequilibrada. Vejo esta nao como um "desmundo", como definiu Toledo; um mundo ao avesso. Descortinei-me para a realidade. 
FAISSAL NEMER HAJAR 
Curitiba, PR 

Pompeu de Toledo nos apresentou a amplitude do "des". Entre os inmeros arranjos que podemos contar com o prefixo, alguns deles podem nos oferecer salvao nacional, tais como os verbos "desLular", "desDilmar", "desPeTizar". 
RONALDE SEGABINAZZI 
Piracicaba, SP 

H, em algum desvo da literatura, um asno que descomia dinheiro... H, como nunca houve na histria deste pas, um governo que muito descomeu na cabea de todos ns, brasileiros. Mais no digo! 
JOS APARECIDO DE MOURA 
So Jos dos Campos, SP 

FUNDO PARTIDRIO 
A discusso para a implementao do financiamento pblico das campanhas polticas ganhou um novo ingrediente. A presidente Dilma acaba de autorizar um substancial aumento do fundo partidrio, que nada mais  do que um financiamento pblico disfarado. A verba do fundo foi "apenas" triplicada ("Com o dinheiro dos outros,  fcil", 29 de abril). O pas falido, educao, sade e segurana pblica deficientes, inflao em alta e desgoverno total, e as torneiras do Tesouro Nacional sempre abertas para liberar dinheiro pblico (nosso dinheiro) para partidos polticos. 
FLAVIO DA ROSA 
So Leopoldo, RS 

No sei o que  pior: o Congresso propor aumentar em 170% a verba do fundo partidrio ou Dilma ter sancionado essa sandice sem vetos. 
GIAN VICTOR PRAZERES TAVARES 
Natal, RN 

VOTO DISTRITAL 
 interessante a proposta do senador Jos Serra (PSDB-SP), principalmente levando em conta o fato de ser um ensaio para as eleies de 2016, no mbito municipal ("O candidato mora ao lado", 29 de abril). A Cmara, ao analisar essa e as demais proposies para a reforma poltica, considerando o "ensaio", bem que poderia inserir um artigo que criasse um teto salarial, primeiramente para os vereadores e futuramente para os demais cargos eletivos, baseado no salrio mnimo. Como o cargo de vereador representa o incio da carreira poltica do sistema eleitoral, a remunerao seria tambm a inicial do sistema remuneratrio da classe poltica. Dessa maneira, o sistema poder gerar mais economia para os cofres pblicos, uma vez que so absurdos os gastos produzidos pela populao poltica. 
WANDERLEY SCOCCO 
Tramanda (RS), via smartphone 

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#6 MALSON DA NBREGA  A INCRVEL RESISTNCIA  TERCEIRIZAO
     A terceirizao  tema fora do radar em pases minimamente relevantes, mas aqui provocou acirrado debate. A reao ao projeto que regula a matria (PL 4330) evidenciou a dificuldade que muitos tm de entender mais um avano no modo de produzir, um processo que acontece h mais de trs sculos, como analisei neste espao (VEJA, edio 2418). Ao contrrio do que se diz, a terceirizao  favorvel aos trabalhadores. Seu propsito no  diminuir direitos e salrios. 
     A resistncia  mudana  simplria, demaggica e ideolgica. Para um ministro do governo, o PL 4330 precariza a relao do trabalho, reduz salrios e por isso "no  bom para os trabalhadores. No  bom para o pas". Inacreditvel. O PSDB, que, sob a liderana de FHC, conduziu amplo e profcuo esforo de modernizao institucional, aliou-se a grupos retrgrados do PT para barrar a terceirizao em atividades-fim das empresas estatais. Decepcionante e triste. 
     A terceirizao  mais antiga do que se pensa  era o modo de produzir nos primrdios da industrializao (sculo XVII). Constitua a base da indstria de caractersticas domsticas que utilizava mo de obra rural (cottage industry). Trabalhadores do campo eram contratados para confeccionar peas de tecidos e de calados. Outros faziam o produto final. 
     At 1700, bens de consumo durvel eram fabricados em bloco nico. O mesmo arteso produzia relgios e mosquetes. Com o advento da engenharia de preciso, surgiu a pea intercambivel. No sculo XIX, foi a vez dos bens de capital e das mquinas-ferramenta. Tornos, plainas e outros instrumentos foram inventados. Os bens passaram a ser produzidos por muitos. Aumentou a produtividade. 
     Em 1769, em Derbyshire, Inglaterra, Richard Arkwright criou a fbrica moderna, para fazer tecidos. Era outro modo de produzir. Os operrios trabalhavam no mesmo espao  com hora para entrar e sair , e no nas fazendas. O processo foi imitado e se ampliou. Inovaes e avanos tecnolgicos intensificaram a mecanizao e reduziram a mo de obra empregada. 
     A reao ao correspondente desemprego veio com o movimento contra a mecanizao, conhecido como luddismo. Em 1811, hordas invadiam fbricas para destruir mquinas, imaginando que os empregos seriam restabelecidos. No percebiam que ganhos de produtividade e de renda advindos da mecanizao contribuam para gerar empregos alhures. A CUT  uma das fontes de resistncia ao PL 4330. Se existisse naquela poca, estaria quebrando mquinas. 
     Em meados do sculo XIX, a industrializao atingiu o auge na Inglaterra sob o modo de integrao vertical, em que se buscava produzir quase tudo. Ainda no havia mercado de peas e servios. Tal modo vigorou at a II Guerra, quando foi possvel descentralizar a produo e iniciar crescente terceirizao nos Estados Unidos. O novo modo de produzir  a integrao horizontal  generalizou-se com a globalizao nos anos 1980. 
     No Brasil, a terceirizao cresceu com a abertura da economia (1988-1995). E continuou sob o imperativo da necessidade de eficincia, produtividade e competitividade. A CUT erra ao afirmar que a terceirizao faz com que os trabalhadores ganhem 25% menos do que os no terceirizados. Na verdade, os menores salrios decorrem do fato de que a terceirizao, embora inclua trabalhadores de maior qualificao, tem ocorrido em maior escala nos servios de conservao, limpeza e segurana, nos quais a remunerao  normalmente mais baixa. 
     Os luddistas ingleses tentavam deter a marcha da Histria. Se eles tivessem vencido sua guerra doida, a Inglaterra no teria alcanado os nveis de renda e bem-estar que beneficiariam seguidas geraes de trabalhadores. A CUT e os que com ela resistem  terceirizao tentaro deter ou piorar o PL 4330 no Senado, cujo presidente disse, demagogicamente, que a terceirizao de atividades-fim  um retrocesso. Se ideias arcaicas prevalecerem, as empresas brasileiras ficaro cada vez menos competitivas, inibindo a ampliao do potencial de crescimento da economia. Os trabalhadores perdero muito. 
     A terceirizao no precariza.  boa para todos.  hora de superar mitos e derrotar os novos luddistas. 
MALSON DA NBREGA  economista


1#7 BLOGOSFERA
EDITADO POR KTIA PERINkperin@abril.com.br

O CAADOR DE MITOS
LEANDRO NARLOCH
CONTRA A SADE 
A Campanha do Agasalho todo mundo conhece, mas pouca gente sabe que h no Brasil uma campanha com o objetivo contrrio: cobrar mais de quem quer se proteger do frio. Desde 2012, o governo sobretaxa em 97% o valor dos cobertores vindos do Uruguai, do Paraguai e da China. www.veja.com/cacadordemitos 

QUANTO DRAMA! 
PATRCIA VILLALBA 
VIL SEM SAL 
A estreia de Babilnia foi cercada de expectativa no s por se tratar de uma novela da grife Gilberto Braga, mas tambm por trazer Adriana Esteves de volta  vilania, trs anos depois da Carminha de Avenida Brasil. A atriz contava com a torcida dos noveleiros para que Ins fosse uma personagem to ou mais empolgante. Desta vez, contudo, Adriana vive  com o reconhecido talento  uma pobre criatura sem atrativos, massacrada e ressentida. www.veja.com/quantodrama 

NOVA TEMPORADA 
FERNANDA FURQUIM 
ZOO 
A srie Zoo, da CBS, conta a histria de Jackson Oz, um zologo que trabalha na frica e precisa desvendar um estranho mistrio: sem motivo aparente, os animais comeam a atacar as pessoas. Em pouco tempo, os ataques se tornam mais frequentes e coordenados e se espalham pelo mundo. www.veja.com/temporada

ELEIES NA EUROPA
A edio desta semana do programa Mundo Livre aborda o papel decisivo que partidos nanicos podem desempenhar nas eleies na Inglaterra e na Espanha. Os jornalistas de VEJA Diogo Schelp, Vilma Gryzinski e Duda Teixeira explicam por que a ascenso do Ukip (um partido nacionalista) e do SNP (separatista), na Inglaterra, e do Ciudadanos (um partido liberal) e do Podemos (chavista), na Espanha, pode pr a perder a difcil recuperao econmica nesses pases. www.veja.com/tveja

INOVAO
O CONCEITO DE DESIGN THINKING
Por muitas dcadas a palavra "inovao" foi associada ao termo "criatividade". Mas  preciso ser criativo e pensar em coisas absolutamente inditas para de fato inovar e pr essas ideias em prtica? O conceito de Design Thinking, um processo para a soluo de problemas, desafia essa associao j to estabelecida. A metodologia e sua aplicao ao mundo dos negcios foram popularizadas no comeo dos anos 90 pelo professor David Kelley, fundador da d.school: Institute of Design at Stanford e da consultoria Ideo, como uma "receita" que qualquer um pode seguir para encontrar melhorias ou solues valiosas para diversos tipos de problema. O processo pode ser aplicado a situaes que vo desde a busca de um novo formato de supermercado at um sistema de energia solar para levar eletricidade a populaes rurais. www.veja.com/inovacao

CIDADES SEM FRONTEIRAS
TERREMOTOS
Em agosto do ano passado, quando a Califrnia sofreu um forte terremoto, ningum morreu e apenas 120 pessoas ficaram feridas. As perdas materiais, no entanto, superaram 1 bilho de dlares, comprovando que a conta dos terremotos  muito mais alta para as naes ricas do que para as pobres simplesmente porque h mais coisas para quebrar. Apesar de as perdas serem significativas nas naes ricas, nenhuma delas pode ser comparada  morte de milhares de pessoas cada vez que um pas pobre como o Nepal sofre um abalo de grandes propores. O fato de isso acontecer numa era em que boa parte dessas mortes j poderia ser evitada  que  a verdadeira tragdia, www.veja.com/cidadessemfronteiras

 Esta pgina  editada a partir dos textos publicados por blogueiros e colunistas de VEJA.com
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2# PANORAMA 6.5.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  MAIS DISTANTES DOS FATOS
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM RENATA ABREU   TUDO MUITO ESTRANHO
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  MAIS DISTANTES DOS FATOS
A explicao racial no basta para entender as mortes por policiais nos EUA.

A cada morte de homem negro nas mos da polcia, torna-se mais autoafirmativo o discurso segundo o qual episdios como esse so uma prova do racismo nos Estados Unidos. Descritas em poucas palavras, as circunstncias das mortes parecem no deixar dvida sobre sua motivao. Nos detalhes, porm, cada um dos seis casos que, nos ltimos trs anos, provocaram protestos em diferentes estados americanos revela-se teimosamente nico, sem semelhanas bvias com os outros. 
Trayvon Martin foi morto na Flrida por um vigilante voluntrio sem preparo para abordar "suspeitos" na rua, no por um policial. O ambulante Eric Garner, de Nova York, sucumbiu a uma gravata dada por um guarda que tentava prend-lo, mas no h indcios de que a morte tenha sido intencional. Michael Brown, morto no Missouri, tinha acabado de assaltar uma loja de convenincia e reagiu  ordem de priso. Tamir Rice, de 12 anos, de Ohio, estava usando uma arma de brinquedo quando foi alvejado por um policial, num erro trgico de avaliao de risco. Mesmo nos casos que foram registrados em vdeo por cidados munidos de smartphones  como o de Walter Scott, da Carolina do Sul, baleado pelas costas, e o de Freddie Gray, que foi arrastado para dentro de uma viatura em Baltimore e, no se sabe como, sofreu leses fatais na coluna no caminho para a delegacia ,  difcil discernir o que  racismo de brutalidade policial pura e simples. A prefeita e o chefe de polcia da maior cidade de Maryland so negros, mas os manifestantes que, na semana passada, saquearam lojas e incendiaram viaturas e casas agiam como vtimas convictas da opresso de autoridades racistas. 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS
MORRERAM
Antonio Abujamra, ator, diretor de teatro e apresentador paulista. Nascido em Ourinhos, estudou filosofia e jornalismo em Porto Alegre. No fim dos anos 50, estudou na Frana com Roger Planchon, especialista em Brecht. De volta ao Brasil, dirigiu, em So Paulo, Cacilda Becker em Razes, de Arnold Wesker (1961). No Rio, encenou Electra, de Sfocles, com Glauce Rocha  a montagem, de 1965, trouxe um dos muitos problemas que ele teria com a ditadura. Em 1989, conquistou enorme popularidade como o bruxo Ravengar, de Que Rei Sou Eu?, novela de Cassiano Gabus Mendes, levada ao ar pela Globo. No mesmo ano tambm se destacou no cinema. Desde 2000, apresentava o programa de entrevistas Provocaes, na TV Cultura, um retrato de sua personalidade  a comear pelo ttulo. Dia 28, aos 82 anos, de infarto, em So Paulo. 

Jean Nidetch, fundadora da organizao Vigilantes do Peso, presente em vinte pases. Tudo comeou em 1961, com a pergunta de uma vizinha que a surpreendeu: "Quando nasce o beb?". Jean, nova-iorquina de 1,70 metro de altura, pesava, ento, 97 quilos. Aps o episdio, ela resolveu buscar ajuda mdica para emagrecer, porm continuou a se fartar de doces. A mudana s veio a partir da deciso de compartilhar suas dificuldades com seis amigas obesas. Todas passaram a fazer regime e a falar de sua situao. Um ano mais tarde, Jean estava com 64 quilos. Em 1963, fundou a Vigilantes do Peso, que, alm de sugerir dietas, oferecia encontros motivacionais. A iniciativa se tornou mundialmente famosa e o livro de receitas de Jean vendeu milhes de exemplares. Em 1978, a H.J. Heinz comprou o negcio por 71 milhes de dlares. Dia 29, aos 91 anos, na Flrida. 

Franois Michelin, industrial francs, neto do fundador da fbrica de pneus que tem o nome da famlia, dirigida por ele entre 1955 e 2002, numa gesto marcada pela expanso internacional da empresa. Sob seu comando, a companhia desenvolveu o pneu radial, tornando-se lder do setor, e abriu 25 fbricas fora da Frana. Nascido em Clermont-Ferrand, cidade-sede da Michelin, Franois entrou anonimamente para o grupo em 1951, como operrio. Dia 29, aos 88 anos, em Clermont-Ferrand. 

Ins Etienne Romeu, nica sobrevivente da Casa da Morte, localizada em Petrpolis (RJ), que, durante o governo militar, serviu como posto de deteno e tortura de presos polticos. Comandada pelo Exrcito, seu funcionamento s veio  tona em 1981, com o depoimento de Ins. Dez anos antes, a mineira de Pouso Alegre havia sido presa acusada de integrar a Vanguarda Popular Revolucionria (VPR) e de ter participado do sequestro do embaixador suo Giovanni Enrico Bucher. Nos 96 dias em que ficou na casa, foi torturada e estuprada. Dia 27, aos 72 anos, de infarto, em Niteri. 

Andrew Lesnie, diretor de fotografia australiano das trilogias O Senhor dos Anis, que lhe rendeu um Oscar, em 2002, e O Hobbit. Nascido em Sydney, tornou-se conhecido depois de Babe, o Porquinho Atrapalhado (1995). Trabalhou ainda no remake de King Kong (2005). Dia 27, aos 59 anos, em Sydney. 

 TER | 28 | 2015 
Executado, na Indonsia, Rodrigo Gularte, de 42 anos. Condenado em 2005 por trfico de drogas, foi o segundo brasileiro neste ano a enfrentar o peloto de fuzilamento daquele pas. A defesa tentou reverter a pena sob a alegao de que Gularte era esquizofrnico. 


2#3 CONVERSA COM RENATA ABREU   TUDO MUITO ESTRANHO
Eleita pelo nanico PTN, a deputada federal se surpreendeu ao deparar no Congresso com colegas que discursam para as cadeiras e que votam sem saber o assunto. Resolveu contar (quase) tudo num blog.

No seu blog, a senhora diz que achou tudo muito confuso no Congresso e que ficou perdida nos primeiros dias. O que foi mais difcil de entender? 
Por exemplo: os lderes dos partidos tm a prerrogativa de falar em qualquer sesso. Mas h vezes em que estamos votando um projeto de lei, com todo mundo debatendo os prs e os contras da questo, e um lder sobe  tribuna para falar sobre um assunto dele, que no tem nada a ver com a discusso. Parece coisa de doido. 

A senhora escreveu que eles fazem isso "para se mostrar, para aparecer".  verdade? 
Sim. H at aqueles que fazem discurso para as cadeiras, ficam no microfone quando no h ningum no plenrio. S para aparecerem na TV Cmara. 

Como nas votaes de resultado combinado, que a senhora descreve, h brigas combinadas tambm? 
No, as brigas so reais. Mas briga falada no d em nada. Para que um projeto seja aprovado, no  preciso esculhambar o colega. Notei que os bons deputados so aqueles que agem nos bastidores, articulam fora dali, no so os que aparecem mais.  

 verdade que h deputado que vota sem saber do que trata o projeto? 
 verdade. Veja o que me aconteceu h pouco: um deputado votou contra um projeto meu. Quando eu o encontrei no corredor e lhe perguntei o motivo da rejeio, ele disse: "Ns votamos contra? Nem vi. Quando foi?" Eles seguem a orientao da bancada e nem lem o que esto votando. 

A senhora l tudo? 
Sim. Sou uma pessoa que l muito, e muito rpido. 

E tambm conta tudo no seu blog? 
Nem tudo. Dia desses, comemorei meu aniversrio com uma festa, e alguns colegas pediram que eu no citasse no blog o nome de quem compareceu. Para no dar problema em casa. 


2#4 NMEROS
4 vezes mais frequentes se tornaram as ondas de calor intenso e as tempestades no mundo desde o comeo do sculo passado, segundo um estudo do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, um dos primeiros a quantificar o impacto - passado, presente e futuro - do aquecimento global em escala planetria. 
75% dessas ondas de calor e 18% das chuvas pesadas podem ser diretamente atribudas ao aquecimento global provocado pela ao humana, de acordo com o estudo, publicado na nature Climate Change. 
0,85 grau foi quanto subiu a temperatura do planeta desde a Revoluo Industrial. 
62 vezes mais intensas podero se tornar as ondas de calor at o fim do sculo, caso o aumento de temperatura supere 2,5 graus.


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Vlei - O esporte ultrapassou o futebol e se tornou o mais solicitado pelo pblico para os Jogos Olmpicos do ano que vem, liderando a procura em dezenove dos 27 estados. 
Shinzo Abe -  Primeiro premi japons a discursar no Congresso americano, ele citou Pearl Harbor e Carole King. Foi longamente aplaudido. 
Sacolinhas -  A revolta dos consumidores paulistanos diante da cobrana, pelos supermercados, de 8 centavos por sacola plstica fez com que os estabelecimentos recuassem - agora, duas so de graa.

DESCE
Nordeste -  O desemprego na regio alcanou o patamar mais alto desde 2008: em Salvador, foi de 12%, o maior do pas. 
Elizabeth II -  Pela primeira vez, a monarca ficou de fora da lista dos 300 mais ricos da Inglaterra. Com 340 milhes de libras, Sua Majestade tem menos de um dcimo do que possua em 1989. 
Uber - Por ordem da Justia, e presso dos taxistas de So Paulo, o aplicativo que conecta usurios a motoristas autnomos foi suspenso no pas. Agora, carroceiros j podem pedir a proibio dos automveis tambm


2#6 RADAR
THIAGO PRADO thiago.prado@abril.com.br

 BRASIL
LEI EVANGLICA 1 
As duas lideranas evanglicas mais antipetistas do pas tiveram um discreto encontro com Michel Temer na ltima segunda-feira, 27. Ciceroneados por Eduardo Cunha, o bispo Robson Rodovalho e o pastor Silas Malafaia falaram da necessidade da aprovao de uma Lei Geral das Religies. O secretrio da Receita Federal Jorge Rachid acompanhou a conversa. 

LEI EVANGLICA 2 
A ofensiva evanglica chegar ao Senado na semana que vem. Renan Calheiros aceitou receber lideranas para ouvir argumentos contrrios  indicao de Luiz Edson Fachin para o STF. O jurista ser bombardeado nas redes sociais de pastores por ser favorvel, por exemplo, ao pagamento de penso para amantes. 

BANDEIRA BRANCA 
A Globo enviou Paulo Tonet, seu vice-presidente de relaes institucionais, para um papo com a Frente Evanglica, em campanha na internet contra as personagens gays da novela Babilnia. Por ora, nada mudou na atuao dos deputados.  

NOVO PARTIDO 
O ex-deputado federal Cndido Vaccarezza ser o prximo petista a abandonar o barco. Est de malas prontas para o PMDB. 

DE SADA 
O comando da Empresa Brasil de Comunicao (EBC) ser trocado em outubro. O presidente Nelson Breve decidiu deixar o cargo. 

 PETROLO 
NOVOS MILIONRIOS 
A Receita Federal comeou a avaliar a evoluo patrimonial dos envolvidos na Operao Lava-Jato a partir de  2003. Zwi Skornicki, suspeito de ser o operador do estaleiro Keppel Fels na roubalheira da Petrobras, engordou o patrimnio de 1,8 milho de reais para 63,2 milhes de reais no perodo. J os bens do lobista Milton Pascowitch, acusado de operar propinas da Engevix, pularam de 574.000 reais para 28,2 milhes de reais. 

MESMA DEFESA 
A Andrade Gutierrez, que at o momento no teve nenhum executivo preso na Lava-Jato, resolveu se precaver: contratou o mesmo escritrio de advocacia que defende quatro diretores da OAS libertados pelo STF. A Andrade quer acompanhar mais de perto as investigaes no Paran.  

 ECONOMIA 
DESAFIOS DE AO PELA FRENTE 
Benjamin Steinbruch recebeu dois duros golpes nos seus planos de reduzir o endividamento da CSN. H um ms, a siderrgica sofreu com a alterao dos benefcios fiscais no pagamento de ICMS no Rio de Janeiro. Hoje, a empresa paga cerca de 200 milhes de reais por ano em impostos no estado. Luiz Fernando Pezo acha pouco e, com a nova legislao, quer a volta do perodo em que a CSN despejava 1 bilho de reais nos cofres pblicos. A outra mordida veio da rea ambiental: o governo do Rio executou uma fiana bancria da siderrgica de 13 milhes de reais por no cumprimento dos compromissos de um termo de ajustamento de uma fbrica. Steinbruch nunca teve boas relaes com Srgio Cabral e, pelo visto, a tradio seguir com Pezo.   

NA RUA 
Desde o incio do ano, 950 funcionrios foram desligados da sede da Odebrecht em So Paulo. 

DELTA NEWS 
A Justia do Rio de Janeiro acaba de autorizar a compra da Delta, em recuperao judicial desde 2012, pelo grupo espanhol Essentium. Os novos donos da empreiteira assumiro uma dvida de 300 milhes de reais. Em Braslia, no entanto, a situao da empresa no mudou. No ms passado, a CGU decidiu ampliar por tempo indeterminado a inidoneidade da Delta, declarada h trs anos  ou seja, a empresa continua impedida de ganhar contratos pblicos. 

 PUBLICIDADE 
PROPAGANDA IDEAL 
Gisele Bndchen  a personalidade brasileira com maior credibilidade para recomendar um produto em uma campanha publicitria.  o que revela uma pesquisa indita feita pelo Ibope com 6000 entrevistados entre 16 e 69 anos. No sistema de pontuao criado pelo instituto, a modelo recm-aposentada das passarelas alcanou a nota 84,33, seguida de Neymar (82,45) e Silvio Santos (82,35).


2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RINALDO GAMA

O Brasil no conhece o Brasil, s faz de conta que conhece, o que  muito pior. -  JESS SOUZA, presidente do Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada, em O Globo. O Ipea far um estudo sobre a situao das classes sociais brasileiras. 

O PT exauriu-se, esgotou-se. Olha o caso da Petrobras. A gente no acha que o PT inventou a corrupo, mas roubaram demais. Exageraram. - CARLOS LUPI, ex-ministro do Trabalho nos governos Lula e Dilma, presidente do PDT, em entrevista a O Estado de S.Paulo. 

A presidente vai dialogar com trabalhadores e trabalhadoras pelas redes sociais. (...)  uma forma de valorizarmos outros modais de comunicao. - EDINHO SILVA, ministro da Secretaria de Comunicao Social da Presidncia, procurando justificar por que Dilma Rousseff, pela primeira vez desde que assumiu o cargo, no faria pronunciamento em cadeia nacional de rdio e TV no Dia do Trabalho. 

Tenho uma amiga que h poucas semanas ganhava milhes de dlares por ano. Agora est vivendo dentro de uma van em Iowa. - BARACK OBAMA, presidente dos EUA, fazendo referncia, em tom de piada, a Hillary Clinton, pr-candidata democrata  sua sucesso - que, em plena campanha, vem percorrendo o pas em um veculo desse tipo -, ao participar de um jantar com jornalistas que cobrem o governo, em Washington. 

Acreditamos que todas as pessoas so empreendedoras em potencial. As que vivem em extrema pobreza no descobrem esse talento porque esto lutando para sobreviver um dia de cada - MUHAMMAD YUNUS, prmio Nobel da Paz de 2006, na Folha de S.Paulo. 

A derrota para a Alemanha no mudou o futebol brasileiro. Continuamos tendo grandes tcnicos, excelentes jogadores. Mas, claro, temos de evoluir sempre. - LUIZ FELIPE SCOLARI, ex-tcnico da seleo e atualmente no Grmio, procurando minimizar o vexame do 7 a 1 diante da Alemanha, na Copa, durante encontro de treinadores da srie A do Brasileiro, organizado pela CBF, no Rio de Janeiro. 

A humildade no leva ningum a subir num palco nem a procurar a administrao de um grande projeto artstico. No entanto, o regente necessita de uma certa maturidade (...), sobretudo para saber lidar com seu prprio narcisismo e vaidade. - JOHN NESCHLING, maestro e diretor artstico do Teatro Municipal de So Paulo, no Valor Econmico. 

No precisa ficar acanhado, no. Vocs so tcnicos, so jurados, vocs podem falar. - FERNANDA LIMA, apresentadora do SuperStar, dirigindo-se em primeiro lugar a Thiaguinho e depois a Sandy, que tm sido criticados por sua atuao no jri do programa da Rede Globo. 

Sem o jornalismo no existiria boa parte dos meus livros. - MRIO VARGAS LLOSA, escritor peruano, Nobel de Literatura, durante o I Frum Internacional do Espanhol 2.0., realizado em Madri. Llosa, de 79 anos, conseguiu seu primeiro trabalho aos 15 no dirio La Crnica, de Lima. 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto de motivaes que atormentam a poltica 
 o instinto do abuso do poder que faz sonhar com tanta paixo com o poder. O poder sem o abuso perde o encanto. - PAUL VALRY, escritor francs (1871-1945).
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3# BRASIL 6.5.15

     3#1 O JUIZ E O JUZO FINAL
     3#2 LIGAES IMPRPRIAS
     3#3 BALANA O TRIP DE MORO
     3#4 IRMO DE OUTRO MUNDO

3#1 O JUIZ E O JUZO FINAL
O STF liberta empreiteiros que ameaavam envolver o ex-presidente Lula, a campanha da presidente Dilma e dois de seus principais auxiliares no escndalo de corrupo da Petrobras.
DANIEL PEREIRA, RODRIGO RANGEL E ROBSON BONIN

     Em novembro do ano passado, o juiz Srgio Moro decretou a priso preventiva de dirigentes e proprietrios das maiores empreiteiras do pas. A operao foi balizada de Juzo Final  e hoje  fcil entender por qu. H uma dcada, os empresrios criaram um clube para dividir entre eles as principais obras da Petrobras. Em parceria com diretores da estatal, combinavam preos e dividiam os lucros com polticos corruptos. O grupo desviou cerca de 6 bilhes de reais, subornou parlamentares e financiou campanhas eleitorais do PT, do PMDB e do PP, partidos que formam a base aliada do governo. Dos detalhes srdidos aos complexos mtodos usados para saquear a empresa, tudo est razoavelmente delineado. O passo seguinte, mais ousado, era chegar  identidade dos chefes do esquema, o comandante, o capo. Mas veio o tiro no peito, como as autoridades responsveis pela investigao do petrolo definiram, com apreenso, a deciso do Supremo Tribunal Federal (STF) de livrar da cadeia executivos de empreiteiras acusados de participar do maior esquema de corrupo da histria do pas. 
     Foi assim tambm, um tiro no peito, que os advogados de defesa, ministros e polticos poderosos classificaram a sentena, s que com ares de alvio e satisfao. A diferena de estado de esprito decorre de uma anlise consensual entre investigadores e investigados: ao mandar os presos para casa, o STF reduziu as chances de que empreiteiros de ponta assinem acordos de delao premiada e ajudem as autoridades a chegar aos mandantes da organizao criminosa que roubou bilhes de reais da Petrobras. O petrolo, como se sabe, tem um corpo devidamente mapeado. Seus membros so doleiros, laranjas, servidores da companhia, parlamentares e empresrios que trocaram favores e propinas desde o governo Lula. Falta identificar a cabea desse organismo corrupto. Pelo menos dois dos empreiteiros soltos tinham informaes de sobra para esclarecer esse ponto e cogitavam faz-lo. Os engenheiros Ricardo Pessoa, dono da UTC, e Lo Pinheiro, ex-presidente da OAS, ameaavam envolver o ex-presidente Lula, a campanha da presidente Dilma Rousseff e dois ministros de Estado na cadeia de comando do petrolo. Liberados depois de quase seis meses de crcere, eles tendem a ficar calados e guardar seus valiosos segredos. O governo pressiona para que essa seja a postura adotada: se contarem o que sabem, as empresas jamais assinaro novos contratos com rgos pblicos. Mas, se continuarem em silncio, os empresrios sero ajudados a superar a tormenta na Justia e na seara empresarial. "Eles no podem quebrar a relao de confiana com o governo. Quem assina acordo de delao premiada se transforma em pria", conta um governista que tratou do assunto com representantes de Ricardo Pessoa. Foi ao julgar um pedido de habeas corpus do empreiteiro que o STF determinou, na semana passada, a sada dos presos da cadeia. Todos esto agora em priso domiciliar, obrigados a usar tornozeleiras eletrnicas e proibidos de deixar o pas. 
     A deciso, tomada pela Segunda Turma do STF, representa a primeira derrota relevante do juiz Srgio Moro na conduo da Operao Lava-Jato. Advogados de defesa acusavam Moro de manter a priso preventiva dos empresrios a fim de for-los a fechar acordos de delao premiada. Aos cinco ministros da turma, o criminalista Alberto Toron, defensor de Ricardo Pessoa, disse que Moro tinha "pendores autoritrios" e que no havia mais razes jurdicas para que seu cliente continuasse na carceragem da Polcia Federal em Curitiba. O argumento sensibilizou o relator do recurso, ministro Teori Zavascki. "Seria extrema arbitrariedade, que certamente passou longe da cogitao do juiz de primeiro grau, manter a priso preventiva como mecanismo para extrair do preso uma colaborao premiada, que, segundo a lei, deve ser voluntria. Subterfgio dessa natureza constituiria medida medievalesca que cobriria de vergonha qualquer sociedade civilizada", afirmou o relator. A declarao passou a ser replicada pelos petistas nas redes sociais antes mesmo do fim do julgamento. quela altura, eles previam uma derrota acachapante de Moro e sua desmoralizao pela corte constitucional brasileira. Era o cenrio dos sonhos dos corruptos, desejosos de que o tiro no peito da Lava-Jato fosse letal ao juiz e  investigao. Nada feito. 
     Moro, cujas decises at ento eram chanceladas pelos tribunais superiores, angariou apoios de peso dentro do STF. O voto de Zavascki foi seguido pelos ministros Dias Toffoli, que nem sequer argumentou para acompanhar o relator (veja matria na pg. 48), e Gilmar Mendes, que concordou com a tese segundo a qual a manuteno da priso preventiva dos empreiteiros representaria uma antecipao da condenao, imposta antes do devido processo legal. Outros dois ministros, no entanto, votaram contra a concesso do habeas corpus. Crmen Lcia, que ser a prxima presidente do STF, e o decano Celso de Mello ponderaram que, como tem defendido o juiz Moro, a fase de instruo dos processos ainda no acabou, e os empreiteiros, fora da priso, podem atrapalhar as investigaes. Advogados de Pessoa, por exemplo, tentaram coagir uma testemunha. Por 3 votos a 2, o habeas corpus foi concedido e, depois, estendido a executivos e funcionrios da OAS, Mendes Jnior, Engevix, Galvo Engenharia e Camargo Corra. O placar apertado mostra que havia bons argumentos nos dois lados da trincheira e que a Justia foi bem servida tanto na priso quanto na soltura dos acusados. Cabe s autoridades agora dar seguimento  apurao e impedir que a sensao temporria de impunidade decorrente da deciso do STF perdure at o fim do processo. Para tanto, basta seguir as pistas j reveladas por Ricardo Pessoa e Lo Pinheiro. 
     O dono da UTC era o principal motivo de preocupao dos governistas. Em bilhetes escritos quando estava preso, ele insinuou que as doaes feitas por empreiteiras  campanha da presidente Dilma Rousseff em 2014 foram custeadas com propinas recolhidas na Petrobras  exatamente como disseram alguns delatores do petrolo. "As empreiteiras juntas doaram para a campanha de Dilma milhes. J pensou se h vinculaes em algumas delas. O que dir o nosso procurador-geral da Repblica. STF a se pronunciar." Noutra mensagem, Pessoa mandou um recado direto a Edinho Silva, tesoureiro da campanha  reeleio de Dilma e atual ministro da Secretaria de Comunicao Social: "Edinho Silva est preocupadssimo. Todas as empreiteiras acusadas de esquema criminoso da Operao Lava-Jato doaram para a campanha de Dilma. Ser se (sic) falaro sobre vinculaes campanha x obras da Petrobrs?". Alm desses registros, o empreiteiro fez questo de narrar a pessoas prximas episdios comprometedores. Ele contou que deu, em 2014, 30 milhes de reais obtidos no petrolo a candidatos do PT, entre eles a presidente Dilma Rousseff. Disse ainda ter informaes minuciosas da atuao dos ministros Edinho Silva e Jaques Wagner (Defesa) na coleta de dinheiro sujo para o partido. De quebra, garantiu ter pago despesas pessoais do ex-ministro Jos Dirceu, condenado no mensalo e investigado no petrolo, a pedido do tesoureiro petista Joo Vaccari Neto. 
     Esses segredos chamaram a ateno de procuradores e delegados e, na outra ponta, despertaram a apreenso dos governistas. O primeiro grupo passou a conversar com Pessoa. O segundo, a pression-lo a no colaborar com as investigaes. Faz tempo que esse cabo de guerra est em curso. O acordo de delao vinha sendo negociado pelos procuradores da fora-tarefa de Curitiba, mas h um ms as tratativas comearam a ser feitas diretamente pelo gabinete do procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot. O dono da UTC foi instado a admitir pagamento de propinas em outros setores do governo e cobrado ainda a detalhar favores e servios prestados a Lula, a Dilma e ao mensaleiro Jos Dirceu. Pelo menos cinco reunies entre as partes foram realizadas. Nas mais recentes, na hora de formalizar a colaborao, Pessoa titubeou e no entregou a mercadoria prometida. 
     Antes do julgamento do habeas corpus pelo STF, o governo fez chegar ao dono da UTC a previso de que ele seria solto. Empreiteiros tambm o pressionaram a no colaborar com o Ministrio Pblico enquanto seu recurso no fosse julgado, para que todos  e no apenas ele, na condio de delator do petrolo  fossem para casa. Assim foi feito. Depois de emagrecer quase 20 quilos, parar de fumar e trocar o perfil de bonacho por um semblante taciturno, Ricardo Pessoa est em priso domiciliar  e o acordo de delao, em banho-maria. 
     A mesma situao vale para Lo Pinheiro. Dez quilos mais magro, com srios problemas de sade e apavorado pela possibilidade de ficar o resto da vida na priso, o ex-presidente da OAS passou a registrar o que poderia contar s autoridades em troca da reduo de sua pena. Se Pessoa tem como alvos provveis Dilma e dois ministros, Pinheiro pode entregar Lula, de quem  amigo e parceiro de prosa. Na semana passada, VEJA revelou que a OAS de Pinheiro reformou em 2011 um stio em Atibaia (SP) que  usado como refgio pelo petista. A propriedade est em nome de scios de Fbio Lus da Silva, o Lulinha. Esse seria apenas um dos favores da empreiteira investigada no petrolo ao ex-presidente. Segundo Pinheiro, a OAS incorporou obras imobilirias de uma cooperativa ligada ao PT, tambm a pedido de Lula, para que fosse concluda a construo de um luxuoso trplex de frente para o mar no Guaruj, litoral paulista. O imvel pertence justamente  famlia do ex-presidente. Pessoa tambm contou ter arrumado um emprego para o marido de Rosemary Noronha  a amiga ntima de Lula apanhada traficando influncia no governo. Acuada, ela ameaava contar  PF uma srie de trapaas dos petistas. 
     Por ora, a possibilidade de os empreiteiros colaborarem para identificar os chefes da quadrilha  considerada remota. "A apurao vinha num crescendo, e isso, sem dvida, faz com que o ritmo diminua", diz um dos encarregados da investigao. Integrante da fora-tarefa da Operao Lava-Jato, o procurador Diogo Castor de Mattos ressalta que, no Brasil, a concesso de habeas corpus contribui de forma decisiva para a liberdade definitiva dos presos e o reforo do sentimento de impunidade. Por um motivo simples: graas  quantidade de recursos judiciais e  lentido na tramitao por diversas instncias,  regra geral que os processos demorem anos para ser julgados, o que leva  prescrio das penas. Dados do Conselho Nacional de Justia (CNJ) mostram que 2918 aes sobre crimes de corrupo, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa prescreveram em 2013, o que equivale a 10% das aes em tramitao sobre esses crimes. "H um risco muito grande de que os empreiteiros nunca mais voltem para a cadeia, mesmo se condenados pela Justia", diz Mattos. A verdadeira queda de brao entre o juiz Srgio Moro e os corruptos est apenas comeando. 

A MARATONA DA IMPUNIDADE
Recurso atrs de recurso, os empreiteiros e outros acusados de corrupo podem jamais voltar  priso.

1- A LARGADA
As primeiras sentenas do caso devem sair em meados deste ano. Se condenados, os empreiteiros vo recorrer em liberdade. 

2- PRIMEIRA ETAPA 
O primeiro recurso  ao Tribunal Regional Federal. Nessa fase, a defesa pode entrar com medidas protelatrias, como pedir que novas testemunhas sejam ouvidas. As sentenas nesse tribunal levam em mdia quatro anos para sair. Mantida a condenao, cabe recurso ao Superior Tribunal de Justia.  

3- SEGUNDA ETAPA 
Os recursos ao STJ no tm como objetivo mudar a sentena, mas anular o processo - em geral, a alegao  que as provas foram obtidas de forma ilcita. S a escolha de um relator para o caso leva de seis meses a dois anos. Outros dois anos so necessrios para que o tribunal chegue a uma deciso.  

4 -TERCEIRA ETAPA 
Os rus continuam em liberdade. Quando o caso finalmente chega ao Supremo Tribunal Federal, a ltima instncia, os advogados repetem a estratgia de tentar anular todo o processo. Agora, a argumentao  o desrespeito aos direitos constitucionais, como o de ampla defesa. No STF, uma ao penal pode levar cinco anos para ser julgada. 

5- A CHEGADA 
Do incio ao fim do julgamento, a defesa pode apresentar nas quatro instncias at 120 recursos - como pedidos de invalidao de provas e embargos. Uma ao, como a pesa sobre os empreiteiros, pode levar em mdia doze anos para ser concluda. Enquanto isso, o: rus permanecem em liberdade. 

6- O PDIO 
At que o julgamento chegue ao fim,  provvel que a maioria dos crimes tenha prescrito. Muitos dos rus esto prximos dos 70 anos, idade a partir da qual os prazos de prescrio caem pela metade - o crime de lavagem de dinheiro, por exemplo, prescreve em oito anos, ou quatro, se o ru  septuagenrio. 

DECISO DIVIDIDA
Os ministros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal divergiram sobre a libertao dos empreiteiros presos - tese que acabou prevalecendo por 3 votos a 2. 

"Subterfgio dessa natureza (manter os rus presos para forar uma delao premiada), alm de atentatrio aos mais fundamentais direitos consagrados na Constituio, constituiria medida medievalesca que cobriria de vergonha qualquer sociedade civilizada." - Teori Zavascki, ministro relator

Voto com o relator.  Dias Toffoli, ministro

"Testemunhas ainda podem ser reinquiridas. Como no existe mulher quase grvida, no existe instruo quase acabada. Quando finalizar a instruo, esse quadro pode mudar." - Crmen Lcia, ministra 

" evidente que a soltura dos acusados vai gerar na sociedade sensao de impunidade. Estamos tratando de um caso rumoroso. A lentido de nossa Justia faz com que a sociedade aviste as prises preventivas como instrumento de punio, no de garantia." - Gilmar Mendes, ministro 

Os fatos emergentes da denominada Operao Lava-Jato parecem sugerir que ainda subsistiria, no mago do aparelho estatal, aquela estranha e profana aliana entre determinados setores do poder pblico, de um lado, e agentes empresariais, de outro, reunidos em um imoral sodalcio com o objetivo perverso e ilcito de manipular procedimentos licitatrios." - Celso de Mello, ministro.

COM REPORTAGEM DE ALEXANDRE HISAYASU E PIETER ZALIS


3#2 LIGAES IMPRPRIAS
Um relatrio da Polcia Federal descreve uma inadequada, estranha e preocupante proximidade entre o ministro Dias Toffoli, do STF, e o empreiteiro Lo Pinheiro, da OAS.
RODRIGO RANGEL

     No dia 13 de novembro do ano passado, o engenheiro Lo Pinheiro, scio e presidente da empreiteira OAS, no imaginava que sua rotina estaria prestes a sofrer uma reviravolta em algumas horas. Era noite de quinta-feira. Trocando mensagens com um amigo, ele parecia tranquilo e informava: "Estou indo para a frica na segunda". Depois, perguntou: "Voc vai ao aniversrio do ministro Toffoli no domingo?". O amigo respondeu que ainda no sabia se compareceria  festa. Marcaram um encontro para o sbado no Rio de Janeiro e outro para segunda-feira, 17, em So Paulo. Lo Pinheiro acabou no indo  frica, ao Rio, a So Paulo nem ao aniversrio do ministro. A Polcia Federal prendeu o engenheiro horas depois da troca de mensagens. Seis meses se passaram e esse dilogo, aparentemente sem relevncia, ganhou outra dimenso. Lo Pinheiro foi solto na ltima semana no fim de um julgamento dividido, em que o voto do ministro Toffoli foi decisivo para sua libertao. Toffoli votou com o relator, ministro Teori Zavascki, para conceder habeas corpus ao empreiteiro Ricardo Pessoa, da OAS  deciso logo estendida aos demais presos da Lava-Jato. Se Toffoli tivesse votado contra a concesso do habeas corpus, Pessoa e Lo Pinheiro teriam sido mantidos atrs das grades. 
     Lo Pinheiro, ponta de lana do esquema de corrupo da Petrobras, acusado de desviar bilhes de reais e de subornar algumas dezenas de polticos, deve sua soltura  inadequada e estranha proximidade com o ministro Toffoli?  to difcil afirmar que sim quanto que no. Para que os empreiteiros continuassem presos bastaria que um dos outros ministros que votaram a favor do habeas corpus, Gilmar Mendes e Teori Zavascki, tivesse discordado do relator. A questo  que, at onde se sabe, nem Gilmar Mendes nem Teori Zavascki tm relaes com empreiteiros. Como mostra o relatrio da Polcia Federal, Toffoli  prximo de Lo Pinheiro, da OAS. Ambos so amigos diletos do ex-presidente Lula, em cujo governo Toffoli, ex-advogado do PT, foi nomeado para o STF. 
     VEJA teve acesso a um relatrio produzido pelos investigadores da Operao Lava-Jato a partir das mensagens encontradas nos telefones apreendidos com Lo Pinheiro. O documento mostra que o empreiteiro frequentava as altas esferas de poder da capital. O interlocutor que aparece marcando encontros com ele no Rio e em So Paulo e a ida  festa de aniversrio de Toffoli  o ministro Benedito Gonalves, do Superior Tribunal de Justia (STJ). Vale lembrar que Benedito chegou a ser o nome preferido do governo para assumir uma vaga no STF. "As mensagens demonstram uma proximidade entre Lo Pinheiro e Benedito Gonalves, bem como a proximidade destes com o ministro Toffoli", conclui o relatrio da Polcia Federal. 
     Os dilogos interceptados revelam uma relao imprpria. H pouco menos de dois meses, o ministro Gilmar Mendes props que um dos integrantes da corte se oferecesse para preencher a vaga aberta na turma encarregada de julgar os recursos da Operao Lava-Jato. A turma, de cinco ministros, estava com um a menos desde a aposentadoria de Joaquim Barbosa. A vaga seria preenchida pelo novo ministro indicado pela presidente Dilma Rousseff. Foi justamente com o argumento de evitar o constrangimento que seria deixar o governo escolher um ministro que vai julgar um escndalo que atinge o prprio governo que Gilmar Mendes props a soluo: um ministro do STF seria escolhido ou se apresentaria voluntariamente para integrar o grupo responsvel pelo julgamento da Operao Lava-Jato. Toffoli, ex-advogado do PT e ex-funcionrio da Casa Civil no governo Lula, ofereceu-se para preencher a vaga. 
     As mensagens interceptadas legalmente pela Polcia Federal indicam que a aproximao entre Lo Pinheiro e Toffoli comeou em 2012. Naquele ano, um funcionrio da OAS lembra a Lo Pinheiro: "Aniversrio do Toffolli dia 15. Gosta de um bom whisky, segundo o amigo dele". Pinheiro pede ao secretrio que o lembre do "presente de Toffoli". A partir da os laos foram se estreitando e os interesses, indo alm do usque. Em agosto de 2013, Lo Pinheiro fala de reunio com Toffoli em Braslia sobre o "assunto dos avies". Na mesma data, Pinheiro indaga a um executivo da OAS sobre uma mensagem a respeito de Toffoli: "Vou precisar do material para AGU". Antes de se tornar ministro do Supremo, Toffoli foi advogado do PT e chefiou a AGU, a Advocacia-Geral da Unio, onde deixou valiosos contatos. Perguntado, Toffoli limitou-se a dizer que conhece Lo Pinheiro, mas no tem relao de intimidade e "no se recorda de ter recebido presente institucional dele ou da empresa OAS". Ele no respondeu se o empreiteiro costumava ser convidado para suas festas. 
     Embora o ministro seja sempre citado com intimidade por Lo Pinheiro, a PF no flagrou nenhuma conversa ou mensagem trocada diretamente com Toffoli. O mesmo cuidado no ocorria na relao do empreiteiro com seu outro amigo influente, o ministro Benedito Gonalves, que era o preferido do ex-presidente Lula para ocupar a vaga aberta no STF. Agora as razes para essa predileo ficaram claras. Um dia aps a reeleio de Dilma Rousseff, o ministro Benedito escreve a Lo Pinheiro: "Meu amigo parabns o ano 2015 comeou ontem. Agora preciso da sua ajuda valiosa para meu projeto". Os analistas da PF no tm dvida de que o projeto a que ele se refere  a nomeao para o STF. Pinheiro responde: "Todo empenho e dedicao ao tema". 
     As trocas de mensagens entre Pinheiro e Benedito escancaram a promiscuidade entre o empreiteiro, encrencado com o esquema de desvio de dinheiro da Petrobras, e um integrante da segunda mais alta corte do pas  que por pouco no chegou ao STF. Pelo seu comportamento no STJ, d para imaginar o que no faria pelo amigo no STF. 
     Logo depois de um encontro com o amigo Lo Pinheiro, o ministro Benedito deu um voto decisivo em favor da OAS em um recurso julgado pelo STJ. O processo tratava de uma disputa com a companhia de saneamento do Maranho, que havia sustado um contrato da empreiteira. O voto de Benedito foi crucial para que a OAS conseguisse uma deciso favorvel. A empreiteira ganhou o recurso por 3 votos a 2. Em 7 de novembro de 2013, Pinheiro mandou uma mensagem ao ministro amigo: "Preciso de seus conselhos. Vai estar no Rio no final de semana?". Cinco dias depois, saiu a deciso em favor da OAS  com o voto fundamental de Benedito. Lo Pinheiro  avisado, provavelmente por algum do jurdico da empreiteira: "Ganhamos de 3x2. Aps pedido de vista do Ministro Benedito, ele votou no sentido de prover o nosso recurso". O empreiteiro responde: "Preciso agradecer ao nosso amigo".  uma reao que envergonha o Brasil. Justia feita por amizade ou interesse  crime. 
     O mais estarrecedor  que o ministro Benedito manda a conta. Em uma mensagem, ele pede a Lo Pinheiro ajuda ao filho, que queria apresentar uma proposta s empresas do grupo OAS. Em outra, Benedito pede ingressos para assistir  final da Copa do Mundo, no Maracan. Ele tambm pede e consegue que a mulher, advogada, seja recebida com deferncia por funcionrios do setor jurdico da OAS. Se, no curso das anlises das mensagens pela Polcia Federal, ficar evidente que Lo Pinheiro tem com Toffoli a mesma comunho de interesses, ser o fim. A corrupo teria, enfim, encontrado uma brecha na mais alta corte de Justia do pas. Isso  impensvel. 


3#3 BALANA O TRIP DE MORO
A estratgia do juiz da Lava-Jato, inspirada no sucesso da faxina contra a corrupo na Itlia dos anos 90, estava apoiada em trs pilares: priso, delao e divulgao. Vinha funcionando extraordinariamente bem, mas a libertao dos empreiteiros rompe o "crculo virtuoso".
ANDR PETRY

     Srgio Moro  um estudioso e admirador da Operao Mos Limpas, a gigantesca faxina contra a corrupo realizada na Itlia na dcada de 90, que comeou investigando um bagre mido com 4000 dlares de propina no bolso e terminou capturando 1300 empresrios e parlamentares. Em 2004, Moro publicou cinco pginas numa revista jurdica analisando a operao italiana. Hoje, o texto circula na rede. Sob o ttulo "Consideraes sobre a Operao Mani Pulite", Moro descreve o que, em sua opinio, explica o estrondoso sucesso da ao italiana.  a criteriosa e sistemtica aplicao de uma estratgia em trs pilares: priso, delao, divulgao. 
     Mesmo antes da condenao, a priso dos corruptos  explica Moro   fundamental para marcar a "seriedade do crime" e mostrar que, at "em sistemas judiciais morosos", a Justia pode funcionar. A delao, por sua vez,  a nica forma de chegar aos mandantes de uma organizao criminosa. Moro cita o raciocnio de um dos investigadores italianos: "A corrupo envolve quem paga e quem recebe. Se eles se calarem, no vamos descobrir jamais". A divulgao, ltima perna do trip,  uma forma de garantir o apoio da opinio pblica s investigaes. Os italianos, escreveu Moro, fizeram "largo uso da imprensa" com esse fim. Sintetizando sua anlise, Moro afirma que o trip criou um "crculo virtuoso" na Itlia: "As prises, confisses e a publicidade conferida s informaes obtidas geraram um crculo virtuoso, consistindo na nica explicao possvel para a magnitude dos resultados obtidos pela Operao Mani Pulite". 
     Desde o incio do ano passado, quando a Lava-Jato saiu do papel, o juiz Srgio Moro, 43 anos, estava pondo em prtica a receita italiana e, desde a semana passada, quando os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram libertar os nove empreiteiros, sua estratgia ruiu. Sem a priso de alguns dos maiores expoentes da organizao criminosa que assaltou a Petrobras,  improvvel que haja novos acordos de delao e, sem novos acordos, ser escassa a produo de novidades capazes de garantir o interesse da opinio pblica. Moro, dizem seus interlocutores mais prximos, ficou decepcionado com a deciso do STF, embora tenha achado exemplar o voto do ministro Celso de Mello, que queria manter os nove na cadeia por entender que a priso preventiva se sustentava em "fatos impregnados de inquestionvel relevo jurdico". Mas Moro no ficou surpreso com o revs. Ele mesmo escreveu, ainda a propsito da operao italiana: " ingenuidade pensar que processos criminais eficazes contra figuras poderosas, como autoridades governamentais ou empresrios, possam ser conduzidos normalmente, sem reaes". 
     As aes penais da Lava-Jato vo continuar caminhando do modo como caminhavam antes da priso dos empreiteiros. Nada impede que, a qualquer hora, o trip de Moro volte a se erguer. Basta um novo motivo para prender um tubaro, quem sabe uma nova confisso de um empreiteiro vestindo tornozeleira eletrnica em casa. Ou, at mesmo, a entrada em cena de novos suspeitos de empreiteiras que constam do cartel da corrupo, como Odebrecht e Andrade Gutierrez, mas que foram pouco incomodados at agora. O apoio da opinio pblica, a julgar pelas pesquisas e pelas ruas, est garantido. Mesmo com tudo isso, ser mais complicado reativar o crculo virtuoso. 
     At a semana passada, as decises de Moro vinham se mantendo contra o arsenal de vrios dos mais calibrados escritrios de advocacia do pas. Ao contrrio de outro magistrado que se tornou celebridade nacional, o ex-ministro Joaquim Barbosa, Moro  considerado um juiz de alta competncia tcnica. J era assim quando cursou direito na Universidade Estadual de Maring, no Paran, onde ganhou fama de "geniozinho". Continuou desse jeito no seu estgio no escritrio do tributarista Irivaldo Joaquim de Souza, que tem meio sculo de experincia e s elogios para Moro: "Era um estagirio brilhante". E seguiu dessa forma quando prestou o rigoroso concurso para juiz federal em 1996, no qual tirou um honroso segundo lugar. Sua competncia ser posta  prova, mais uma vez, para manter a Lava-Jato de p. 
     Alm do talento, h outra qualidade que no falta a Moro: coerncia.  antiga a sua opinio de que a priso preventiva  como  que estiveram submetidos os nove empreiteiros soltos agora  no viola a presuno da inocncia. Tambm  antigo seu interesse pela delao premiada, instituto relativamente recente na ordem jurdica brasileira. Chegou a traduzir um longo artigo do juiz Stephen Trott, de uma corte de apelaes da Justia federal dos Estados Unidos, publicado em 1996. Nele, Trott d conselhos minuciosos sobre as vantagens e as armadilhas de obter o apoio de uma testemunha criminosa, seja como delator, informante ou cmplice. Em sua traduo, Moro deixa evidente  em suas notas de rodap ou nas passagens que fez questo de grifar por conta prpria  que o cerne da questo no  saber se o criminoso deve ser usado como delator, mas quando e como. 
     Na sua trajetria profissional, talvez o dado mais forte seja seu sentido de misso, especialmente no que diz respeito a higienizar a democracia brasileira, amputando o brao da corrupo. H cinco anos, Moro participou de um movimento pela renncia dos diretores da Assembleia Legislativa no Paran, suspeitos de grossa corrupo. A campanha fracassou, mas revelou-lhe que um juiz federal podia fazer mais do que assinar sentenas. A prpria Operao Mos Limpas levou-o a traar um paralelo com o Brasil. Moro acha que as "condies institucionais" que permitiram a limpeza italiana tambm esto maduras entre ns. Escreveu ele: "Assim como na Itlia, a classe poltica no goza de prestgio junto  populao, sendo grande a frustrao pela quantidade de promessas no cumpridas aps a restaurao democrtica". 
     No balano da Lava-Jato, Moro cometeu poucos erros. Em fevereiro, tentou puxar para o seu controle o caso de corrupo que envolve a ex-governadora Roseana Sarney, do Maranho. Perdeu. Depois, pediu a priso preventiva de empreiteiros cujos representantes haviam tido uma audincia na penumbra com o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo. Moro entendeu que conspiravam para obstruir a Justia. Tambm perdeu. No caso mais recente, prendeu a cunhada de Joo Vaccari, ex-tesoureiro do PT, ao confundi-la com a irm. Depois de sete dias em cana, a cunhada do ex-tesoureiro foi libertada, mas Moro no teve a grandeza de admitir que errou de pessoa, escapulindo pela tangente ao dizer que perdera a "certeza" de quem era quem. Agora, trs dos cinco ministros do STF disseram que no havia justificativa para manter os nove presos, derrubando uma deciso de Moro. Juzes erram, cometem injustia, dobram a lei. O fundamental  que sejam movidos, sempre, pelo esprito de acertar, fazer justia e garantir as protees da lei. 
     Nada na carreira de Moro autoriza a pensar que seu esprito esteja no lugar errado. O trip que montou  ousado, mas vem sendo executado com zelo para no violar os direitos dos investigados.  o ensinamento de um dos seus dolos do mundo jurdico, o juiz americano Learned Hand, que nunca chegou  Suprema Corte mas  mais celebrado do que muitos que l chegaram. Bem-nascido e erudito, Hand escrevia com brilho e verve. Jamais se preocupou se suas decises desagradariam a gregos ou troianos, e tinha respeito ptreo pela liberdade de expresso. Trabalhou como juiz federal por mais de meio sculo e morreu aos 89 anos, em 1961. Numa deciso que lhe valeu a hostilidade da imprensa em plena Guerra Fria, Hand inocentou uma funcionria do Ministrio da Justia que fora condenada a quinze anos de priso depois que o governo americano descobriu que ela furtara segredos de defesa para repass- los aos soviticos. Mas a descoberta fora feita atravs de um grampo telefnico ilegal. Numa carta a um dos seus crticos, Hand deixou uma lio imortal: "No  desejvel condenar um ru, mesmo que seja culpado, quando, para faz-lo,  preciso violar as regras que asseguram a liberdade de todos ns". 


3#4 IRMO DE OUTRO MUNDO
Igor Rousseff cria peixes e vive no interior, mas, pelo parentesco, h sempre algum querendo ajud-lo.
RODRIGO RANGEL

     Nem o mais cido adversrio da presidente Dilma Rousseff pode acus-la de usar o cargo para favorecer familiares. Nesse terreno Dilma pode se considerar uma felizarda, pois parente no se escolhe. Que o diga Jimmy Crter, o ex-presidente dos Estados Unidos cujo irmo, Billy, aceitou 220.000 dlares para ser agente da Lbia, ento um pas inimigo de morte de Washington. Ou Barack Obama, que tem um meio-irmo polgamo no Qunia, Malik, que aos 52 anos fez de uma mulher de 19, Sheila, sua terceira esposa. Mas mesmo a presidente da Repblica do Brasil no tem como garantir que seus parentes no sejam assediados por amigos, verdadeiros ou falsos, vidos por lhes prestar favores, interessados ou no. 
     Igor Rousseff, irmo da presidente Dilma, aparece como consultor da Confederao Nacional dos Transportes (CNT) entre 2012 e 2013, perodo em que recebeu 120.000 reais em pagamentos, divididos em dez parcelas. Advogado, Igor tambm estudou histria e jornalismo, mas nunca exerceu para valer nenhuma dessas profisses. Aposentado h trs anos, atualmente ele cria peixes no interior de Minas Gerais. A CNT no quis explicar por que pagou a Igor Rousseff, que, por sua vez, no quis informar tambm por que foi pago. 
     O nome do irmo da presidente apareceu em planilhas com movimentaes bancrias obtidas pela polcia ao investigar o desvio de mais de 20 milhes de reais do Servio Social do Transporte (Sest) e do Servio Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat), entidades subordinadas  CNT. Igor, porm, no  alvo da investigao. A operao, batizada de So Cristvo, referncia ao santo padroeiro dos motoristas, recebeu recentemente da Justia autorizao para a quebra do sigilo das contas da confederao. Foi assim que os investigadores encontraram pagamentos ao irmo da presidente, o que, naturalmente, aguou sua curiosidade. No est clara a razo pela qual ele recebia da CNT. "Igor nunca me falou que j tinha trabalhado para a CNT", afirma o empresrio Alberto Ramos, amigo e parceiro do primeiro-irmo no projeto de criao de peixes, empreitada iniciada h trs anos. Talvez um parecer jurdico? "Ele no gosta de advogar", afirma a atual mulher de Igor, Valquria Rousseff, funcionria pblica. Seu ltimo trabalho, conta Valquria, foi em uma faculdade particular de Minas: "Ele fazia controle de patrimnio. Depois disso, aposentou-se". 
     A CNT no ajuda a elucidar o mistrio. O diretor de relaes institucionais da entidade, Alosio Carvalho, informou primeiro que no havia identificado, em pesquisas internas, nenhuma ligao da CNT com Igor Rousseff. Depois de confrontado com os dados da planilha sobre os pagamentos mensais feitos ao irmo da presidente, a entidade deu a seguinte resposta: "A CNT no vai se pronunciar a respeito desse assunto". A pessoas prximas, porm, Clsio Andrade, presidente da confederao, admitiu que foi dele a deciso de contratar Igor Rousseff para prestar servios de "consultoria na rea de transportes". A natureza dos servios prestados no foi revelada. Clsio, porm, disse que contratou o irmo da presidente "a pedido de um amigo comum", cujo nome no revela. O presidente da CNT garante que nem ele nem sua equipe tentaram, em troca dos pagamentos, usar o parentesco de Igor para conseguir algum tipo de benefcio ou vantagem no governo. 
     Igor Rousseff j foi hippie, porteiro de hotel e controlador de voo. Mora numa casa simples em Passa Tempo, interior de Minas. Na campanha presidencial do ano passado, ele virou personagem da disputa ao ser apontado pelo ento candidato Acio Neves como funcionrio-fantasma da prefeitura de Belo Horizonte entre 2003 e 2009, durante a gesto do petista Fernando Pimentel. Segundo a denncia de Acio, o irmo da presidente recebia sem trabalhar. Colocado subitamente sob os holofotes da curiosidade geral, Igor garantiu que, mesmo morando no interior, comparecia religiosamente  repartio na prefeitura de Belo Horizonte. Os amigos contam que Igor  frequentemente procurado por empresrios interessados em contrat-lo sob qualquer pretexto. Naturalmente, o objetivo desses empresrios  abrir um canal de comunicao com a presidente. 
     Dono de um dos maiores empreendimentos imobilirios de Belo Horizonte, o ex-banqueiro Alberto Ramos recebeu um sim de Igor ao convid-lo para uma sociedade informal no projeto de criao de tilpias. "Igor  meu diretor nesse projeto", diz ele, que se nega a revelar quanto paga ao primeiro-irmo da Repblica. Alberto no perde a oportunidade de aparecer ao lado de Igor Rousseff em Belo Horizonte. No projeto das tilpias, que sero criadas em cativeiro nos municpios mineiros de Cordisburgo e Morada Nova, ele pretende faturar por ms 3 milhes de reais. Alberto Ramos tambm acalenta o plano de construo de um aeroporto de cargas a pouco mais de 100 quilmetros de Belo Horizonte. Para ir adiante com esse projeto, Ramos precisa de autorizao do governo federal. O empresrio garante, porm, que no contratou Igor pensando em obter facilidades em Braslia. "At agora no precisei pedir nada disso a ele", diz. Graas  parceria, no entanto, Ramos conseguiu o que muitos pesos-pesados da economia tentam, mas nem sempre obtm xito: uma reunio com Dilma. No segundo semestre do ano passado, ele foi convidado pela presidente para um almoo no Palcio da Alvorada. "Passei duas horas com ela, mas no pedi nada. Ela me chamou para agradecer pela amizade que eu tenho com o irmo dela." Jimmy Crter viu o irmo ser investigado em meio a uma crise logo apelidada de "Billygate". Barack Obama  alvo constante dos adversrios que querem colar nele as excentricidades do meio-irmo Malik e de outros integrantes de sua famlia estendida. A presidente Dilma, por enquanto, no tem do que se queixar do irmo Igor ou de outros parentes. Que continue assim. 
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4# ECONOMIA 6.5.15

     4#1 1 200 BILHES DE DLARES A ZERO
     4#2 A FUMAA COMO SOLUO

4#1 200 BILHES DE DLARES A ZERO
Por que os acionistas da Apple sero remunerados com uma montanha indita de dinheiro e os da Petrobras no vo receber nem um msero centavo.
GIULIANO GUANDALINI

     O ano de 2007 foi definidor para duas das maiores empresas mundiais. Em janeiro, Steve Jobs, o ento presidente da Apple, apresentou o iPhone, o primeiro celular a explorar verdadeiramente as potencialidades da internet mvel e a sua integrao ao dia a dia das pessoas. Meses depois, a Petrobras anunciou a descoberta do campo de Tupi, na Bacia de Santos, uma fronteira promissora de explorao sob a camada de sal, a quilmetros de distncia da costa e a milhares de metros abaixo do leito do oceano. Recentemente, as duas empresas voltaram a dar notcias extraordinrias. A Petrobras divulgou uma perda contbil superior a 40 bilhes de reais. Como consequncia, no pagar nem um nico tosto em dividendos aos seus acionistas em 2015. Poucos dias depois, a Apple noticiou um lucro de 13,6 bilhes de dlares no primeiro trimestre, em uma alta de 33% em relao ao mesmo perodo do ano passado. Seu atual presidente, Tim Cook, informou que, graas aos resultados espetaculares, a empresa colocar no bolso de seus acionistas 200 bilhes de dlares, na forma de pagamento de dividendos e recompra de aes. 
     Por um breve perodo, conforme mostra o grfico abaixo, a estatal brasileira viu suas aes se valorizarem fortemente. Era tida como a nica empresa do setor a descobrir novas fontes promissoras de petrleo, em um perodo de alta valorizao do produto, com cotaes acima dos 100 dlares o barril. "Ganhamos um bilhete premiado", festejou o governo. Depois de atingirem um pico em 2008, contudo, as aes entraram em declnio contnuo. Parte da desvalorizao se deve  queda no preo do petrleo. Apenas para efeito de comparao, em 2008 eram necessrios apenas cinco barris para a compra de um iPhone; hoje so necessrios doze. Isso explica, entretanto, uma nfima parte das dificuldades da empresa brasileira. Enquanto a Apple manteve uma estratgia slida de longo prazo de desenvolvimento de seus produtos, privilegiando sempre a manuteno de seus elevados ndices de lucratividade, a Petrobras, forada pelo governo, lanou-se em um plano megalmano e tresloucado de investimentos que, mesmo que no fosse corrodo pela corrupo, teria tudo para fracassar. A brasileira, cujo valor de mercado foi superior ao da Apple, hoje vale menos de um dcimo da americana. Apenas o dinheiro em caixa da atual mais valiosa empresa do mundo daria para comprar todas as aes da Petrobras, e ainda sobraria um "troco" de 130 bilhes de dlares. 
     Comparar duas empresas to diferentes pode parecer despropositado. Porm, mesmo em relao s suas concorrentes internacionais, como a Exxon ou a Shell, a brasileira faz feio. "A Petrobras foi submetida a tudo de negativo que se pode infligir a uma companhia", afirma o economista Carlos Eduardo Gonalves, professor da USP. Por "tudo" entendam-se fatores como o subsdio na venda de combustveis para maquiar a inflao e a obrigatoriedade de ser scia de todos os campos do pr-sal, assumindo os riscos independentemente de seu interesse, alm da exigncia de contedo nacional na aquisio de equipamentos, tendo de comprar materiais de qualidade inferior e a um preo maior. Foi vtima de uma administrao guiada por interesses polticos, e no econmicos. Sem falar da corrupo. "Para cobrar propina, a empresa acaba se associando a fornecedores que aceitam entrar no esquema, e no necessariamente aos mais habilitados", diz Gonalves. Na avaliao do economista Joo Manoel Pinho de Mello, mesmo se no houvesse roubo nem propinas, ainda assim a Petrobras teria sido obrigada a dar um passo maior do que as suas possibilidades. "Por uma questo ideolgica, pretensamente nacionalista, exigiu-se demais da empresa", diz Pinho de Mello. "Foi obrigada a gastar muito, no apenas na explorao mas tambm no refino. Os projetos atrasaram, os custos aumentaram e a rentabilidade diminuiu." Com a cotao do barril de petrleo acima dos 100 dlares, j seria difcil cumprir o cronograma previsto. Hoje, com o barril valendo menos de 60 dlares, o plano ruiu completamente. A nova administrao vem tentando reestruturar os negcios da empresa e traz-los  realidade de mercado. O ajuste levar tempo, e no se sabe quando os acionistas voltaro a receber dividendos. Quando um investidor compra uma ao, ele pode obter ganhos, basicamente, de duas maneiras. A primeira  pela prpria valorizao da empresa. Uma ao nada mais , afinal, do que a posse de uma parcela no negcio. O outro modo de ganhar dinheiro  o recebimento de dividendos. Esses ganhos so a distribuio dos lucros entre os acionistas. No raro, as empresas postergam o pagamento de dividendos e retm parte de seus lucros para investir no negcio. Isso  verdade sobretudo para as companhias em seus primeiros anos de vida, ainda mais na rea de tecnologia. O anncio da Apple, na ltima semana, de devolver aos seus acionistas um valor indito de 200 bilhes de dlares significa que a empresa acumulou tanto dinheiro que possui recursos de sobra para financiar os investimentos e, em vez de deixar esses recursos parados, optou por distribu-los. Trata-se de um modo, tambm, de manter o preo das aes em alta. Na Petrobras, a situao  inversa. O caixa da estatal, exaurido por anos seguidos de ingerncia poltica, administrao temerria e banditismo,  insuficiente para bancar o plano de investimentos e o pagamento das dvidas. No restou alternativa a no ser cancelar o pagamento de dividendos. 
     As metforas para ilustrar a debacle da Petrobras so to antigas quanto desgastadas. Ela foi a cigarra imprevidente, e a Apple a formiga disciplinada. O governo brasileiro torrou a riqueza que imaginou que ganharia mesmo antes de a galinha botar os ovos de ouro. A histria real  mais profunda, e tais metforas, apesar de em boa dose verdadeiras, no a exprimem em toda a sua dimenso. Os apuros da estatal so parte de uma crise maior, nacional, que  a falta de crescimento e o desenvolvimento lento. O Brasil, como tantas vezes no passado, iludiu-se com os lucros transitrios da valorizao de seus recursos naturais. Como afirma o economista venezuelano Ricardo Hausmann, a riqueza de um pas est naquilo que ele  capaz de produzir, e no naquilo que ele tem. No livro Por que as Naes Fracassam, Daron Acemoglu e James Robinson contam como a prosperidade mundial pouco evoluiu do neoltico at a Revoluo Industrial. Foi com a inovao tecnolgica, possibilitada pelo desenvolvimento de instituies mais democrticas, que o planeta entrou em uma fase gloriosa de enriquecimento a partir do sculo XVIII. Essa evoluo no ocorreu sem reaes. Dizem eles: "A inovao tecnolgica traz a prosperidade, mas tambm envolve a substituio do velho pelo novo, e a destruio de privilgios econmicos e de poder poltico de certas pessoas ou grupos". Para Acemoglu e Robinson, as naes fracassam quando no criam um ambiente poltico e econmico capaz de incentivar a inovao, criar riqueza e distribuir os ganhos para a sociedade. No Brasil, o governo, nos ltimos anos, nada fez pelo aprimoramento institucional. A Petrobras  apenas o exemplo mais evidente. 

CAMINHOS OPOSTOS
Com o iPhone, a Apple ascendeu ao posto de empresa mais valiosa da histria. A Petrobras foi impulsionada momentaneamente pela descoberta do pr-sal, mas a crise na estatal corroeu o seu valor.
(preo das aes, em dlares)

(MAI) 2005
BR 11,80
Apple 5,68

(JAN) 2007
Apple 12,25

(NOV) 2007
BR 48,15

(ABR) 2015
BR 9,34 (-21%0
Apple 128,39 (+2200%)

PAGAMENTO AOS ACIONISTAS
(dividendo e recompra de aes, em dlares, em 2015)
Apple 200 bilhes
BR Petrobras ZERO




4#2 A FUMAA COMO SOLUO
O perodo chuvoso chega ao fim com as represas das hidreltricas em volumes crticos, e a conta de luz subir ainda mais para pagar a gerao das usinas trmicas.
BIANCA ALVARENGA

     O risco de um racionamento de energia, ao menos nos prximos meses, saiu do radar de preocupaes do governo. O aumento das chuvas em maro e abril ajudou a recompor o nvel dos reservatrios das usinas hidreltricas das regies Sudeste e Centro-Oeste, que so responsveis por dois teros da gerao hidrulica do Brasil, mas a situao no era to crtica desde 2001, na vspera do ltimo racionamento. O fato de o governo descartar o racionamento no significa que os problemas do setor eltrico tenham sido solucionados. H uma conta bilionria que tem sido repassada aos consumidores  as indstrias, o comrcio e as famlias  por causa do planejamento falho e das decises desastradas do governo de Dilma Rousseff no setor e pela diminuio das chuvas nos ltimos dois anos e meio. Na raiz da crise est a deciso poltica da presidente, no fim de 2012, de buscar a reduo de 20% na conta de luz, que representou perdas financeiras pesadas para as empresas do setor e deu estmulo ao aumento do consumo num momento em que especialistas j alertavam para a ameaa de queda na gerao. 
     Um relatrio do Tribunal de Contas da Unio faz o diagnstico das falhas do governo: alm do plano de corte forado na conta de luz, o documento aponta os atrasos em obras, a falta de estmulo para a modernizao do parque de gerao e o desconhecimento da verdadeira capacidade de produo das usinas como razes para que o setor eltrico tenha tantas fragilidades. A hiptese do racionamento s foi adiada, mas no descartada por completo. No ano passado, o volume dos reservatrios do Sudeste e do Centro-Oeste caiu 23 pontos percentuais no perodo seco, que se inicia agora e se estende at novembro. Caso o cenrio se repita, o pas poder chegar ao fim do ano com 10% de gua nos reservatrios, volume perigosamente perto do mnimo operacional. "As hidreltricas nunca operaram em nveis to baixos. Nesse cenrio indito, no se sabe quanta energia elas podero produzir ou sequer se parte delas conseguiria operar em situao to crtica", diz Joo Carlos Mello, presidente da consultoria Thymos. Para que as usinas tenham uma condio de operao similar  do fim do ano passado, seria necessrio chover pelo menos 90% da mdia histrica nos prximos sete meses, ainda segundo uma estimativa da Thymos. 
     O plano do governo  semelhante ao que tem sido adotado desde 2012: manter as trmicas ligadas a todo o vapor para poupar a gua das hidreltricas. Trata-se de mais um risco operacional, uma vez que as trmicas no foram projetadas para funcionar de forma ininterrupta e precisam parar periodicamente para manuteno. O custo chegar s contas. Neste ano, o  aumento mdio foi de 32%. At dezembro, estima-se que a alta acumulada atingir 45%. Uma famlia da cidade de So Paulo que pagava 82 reais na conta de luz em 2013 gasta atualmente 150 reais, segundo um levantamento da Comerc, empresa de gesto e comercializao de energia. 
     Em mais uma mostra de desespero e de que est disposto a pagar o que for preciso para no arcar com o nus de um racionamento, o governo vai recorrer ao setor privado para tentar ampliar a oferta de energia. Ainda no primeiro semestre, ele deve autorizar que empresas distribuidoras possam comprar energia de estabelecimentos que tenham geradores prprios. Na prtica, indstrias e o comrcio, como shoppings, podero ativar seus geradores para distribuir energia para a rede a preos mais elevados do que os do mercado tradicional. O custo estimado desse plano  de at 15 bilhes de reais. Some-se a esse valor o passivo criado pela gerao abaixo do esperado das usinas hidreltricas (por causa do baixo nvel das represas) e a conta vai a 40 bilhes de reais. 
     A Thymos estima que somente esses dois gargalos j sejam suficientes para encarecer a conta de luz no ano que vem em 30%. A situao s no  mais delicada graas  incompetncia do prprio governo, que derrubou a atividade econmica. O consumo de energia no pas deve recuar at 5% neste ano por causa da queda na produo da indstria e da economia que as prprias famlias esto fazendo voluntariamente para tentar compensar tantos reajustes na conta. A ltima vez que o consumo nacional havia cado foi em 2009, o ano da crise financeira global. "O ideal seria desligar as trmicas mais caras, como as movidas a leo, para tentar reduzir o custo de gerao ao longo do ano", diz Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc. "Mas no h margem de manobra."  

A SITUAO DOS RESERVATRIOS
O nvel atual  to baixo quanto o de 2001, quando houve racionamento 
(percentual em relao  capacidade total, no fim de abril)

SUDESTE/CENTRO-OESTE
2001: 32,2%
2014: 38,8%
2015: 33,3%

NORDESTE
2001: 33,1%
2014: 43,6%
2015: 27,4%

Fonte: Operador Nacional do Sistema Eltrico
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5# INTERNACIONAL 6.5.15

UMA CALAMIDADE GLOBAL
A reao imediata ao terremoto que devastou o Nepal mostra que quase no existem mais lugares fora do alcance da caridade internacional.
NATHALIA WATKINS

     O Nepal  um dos pases mais remotos, pobres e belos do mundo. Em suas cidades h uma profuso de centenrios templos hindustas e budistas (Buda, alis, nasceu l, h 2600 anos) e de outras construes histricas. Seu territrio, com uma rea equivalente  do Cear, concentra paisagens de plancie coberta por florestas subtropicais, de verdes montanhas intermedirias e de altssimos picos nevados na Cordilheira do Himalaia. Muitos de seus vilarejos s podem ser alcanados pelo ar ou depois de vrios dias de caminhada em trilhas estreitas e pedregosas. As belezas naturais fizeram do turismo uma salvao da economia, mas tm seu preo. O pas  montanhoso e belo porque fica exatamente sobre o encontro de duas placas tectnicas, o que o torna vulnervel a abalos ssmicos. Por sorte, quando as placas se movem, provocando cenas de caos e desamparo na superfcie, o fato de ser remoto j no impede que o Nepal receba a caridade dos vizinhos e at de pases do outro lado do mundo. 
     Em 1934, quando um tremor de 8 pontos na escala Richter atingiu o pas, o povo nepals contou principalmente com a assistncia da ndia, ento ainda colnia inglesa. Estima-se que 8500 pessoas tenham morrido. No Nepal, no havia sequer telgrafo ou transporte pblico, e a notcia demorou dias para alcanar Londres, a capital do maior imprio daquele tempo. Por isso, e por se tratar de uma nao longnqua, a tragdia de 1934 no mereceu mais do que algumas notas nos jornais. No abalo de 7,8 pontos que sacudiu o pas no sbado 25, as informaes e a ajuda internacional correram muito mais rapidamente. O tremor foi registrado por sismgrafos em todo o planeta e as primeiras fotos e vdeos das avalanches e dos prdios desabados comearam a aparecer na internet instantes depois do terremoto. Mais de cinquenta pases enviaram comida e medicamentos em avies e helicpteros. Dezenas de equipes de salvamento e resgate estrangeiras, muitas vinculadas a organizaes no governamentais, apressaram-se em ajudar os nepaleses. Cidados de todo o mundo, incluindo brasileiros, organizaram-se para fazer o mesmo em voos comerciais. Se o tremor da semana passada tivesse tido a mesma magnitude do de 1934, o nmero de mortos poderia chegar a 40.000. Como foi menos intenso e ocorreu na hora do almoo de sbado, quando as pessoas esto acordadas e fora de casa, os clculos mais pessimistas falavam em 15.000 mortos. 
     O epicentro do terremoto foi a 80 quilmetros da capital, Katmandu. A terra tremeu durante dois minutos e, nas horas e nos dias seguintes, vieram os tremores secundrios, menos intensos mas tambm perigosos. No Vale do Katmandu, dos sete templos, praas e construes considerados patrimnio histrico da humanidade pela Unesco, quatro foram danificados. Tambm foi atingida a Torre Dharahara, erguida em 1832 para ser um ponto de observao da realeza. De debaixo de suas runas, foram retirados 180 corpos. Na base do Monte Everest, a montanha mais alta do mundo, a 160 quilmetros da capital, uma avalanche soterrou dezoito alpinistas. Um quarto dos 30 milhes de habitantes do pas ficou ferido, sem casa, sem comida ou sem gua  ou tudo isso ao mesmo tempo. 
     O socorro foi mais eficiente e imediato em Katmandu e seus arredores. Em Bhaktapur, cujos prdios histricos tambm so considerados patrimnio da humanidade pela Unesco, um beb de apenas 4 meses foi resgatado sem ferimentos das runas de sua casa, depois de ficar 22 horas soterrado. Por negligncia do governo nepals, a ajuda demorou a chegar s localidades do interior. Em um mundo globalizado, de fato, no existem lugares remotos. Mas existem lugares impenetrveis ou que ficam esquecidos por pura falta de vontade poltica. O exemplo mais recente  o de Mianmar, atingido em 2008 pelo ciclone Nargis, que matou 140.000 pessoas. A junta militar que ento governava o pas impediu que a populao recebesse qualquer tipo de ajuda internacional. O governo dificultou a entrada de estrangeiros, atrasando ou negando os vistos necessrios. Organizaes externas imploraram para poder ajudar. Os primeiros avies com mantimentos e remdios chegaram com cinco dias de atraso. O ministro das Relaes Exteriores da Frana, Bernard Kouchner, falou at em tentar uma ajuda humanitria  fora. 
     O Nepal, ao contrrio de Mianmar, conhece bem os benefcios de ser aberto para o mundo. O pas tem uma agricultura atrasada e uma populao de baixa escolaridade. A principal fonte de renda dos nepaleses so as remessas enviadas por parentes que vivem no exterior. O volume de recursos representa 30% do dinheiro circulante. Em segundo lugar est a receita proveniente do turismo, 18%. Embora tenha sido dominado por uma elite desptica entre o fim do sculo XVIII e o fim do sculo XX, o pas comeou a se abrir para estrangeiros na dcada de 50. Em 1953, o neozelands Edmund Hillary e o xerpa Tenzing Norgay foram os primeiros a escalar o Monte Everest, inaugurando a era do turismo no pas. 
     Desde ento, tem-se a impresso de que a hospitalidade est na alma da nao. "Por terem se acostumado a viver em comunidades isoladas, onde todos se conhecem, os nepaleses imaginam que todos os seres humanos esto conectados, inclusive os estrangeiros", diz a antroploga Kathryn March, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Essa caracterstica,  bvio, no os impediu de infligir sofrimento a si mesmos. Entre 1996 e 2006, a guerra entre as foras do rei e rebeldes maostas matou 16.000 pessoas. A monarquia constitucional deu lugar a uma repblica em 2008. Nos ltimos sete anos, os partidos polticos tentam em vo chegar a um acordo para aprovar uma Constituio democrtica. 
     Incompetente nas questes domsticas, o governo nepals tem sido eficiente em administrar as relaes internacionais. Como Estado-tampo entre a China e a ndia, o Nepal tem conseguido manter boas relaes com ambos. Para a China, a principal preocupao  que o Nepal no seja um refgio para os dissidentes que pedem a independncia do Tibete. Em respeito a essa amizade, o governo de Katmandu no permite que os tibetanos entrem em seu territrio. Alm disso, o Nepal recusou a ajuda humanitria de Taiwan para no ter problemas com as autoridades da China "continental". J a ndia, o primeiro pas a enviar equipes de resgate  capital nepalesa poucas horas depois do terremoto, quer ampliar sua influncia regional e v no vizinho que compartilha a mesma cultura hindusta um parceiro natural. 
     O Nepal deve enfrentar outro forte terremoto nos prximos vinte anos. Isso porque a energia que foi acumulada no subsolo pelo movimento das placas tectnicas ainda no foi totalmente dissipada (veja o quadro na pg. ao lado). A constatao foi feita por um grupo de cientistas que passou os ltimos cinco anos no Nepal analisando as rupturas deixadas na crosta terrestre por tremores anteriores. Eles descobriram que, nessa regio, os grandes terremotos tendem a ocorrer a cada 600 ou 700 anos. Tambm constataram que um abalo de grande magnitude tende a gerar outro algumas dcadas mais tarde, como num efeito domin. H uma transferncia de fora de um terremoto para outra regio prxima, que d origem a um novo tremor. O fenmeno ocorreu em 1255, quando um abalo de 7,7 pontos na escala Richter atingiu Katmandu, seguido de um novo terremoto em 1344. 
     No sculo passado, outros abalos atestaram essa teoria. O de 1934 ainda  lembrado pelos nepaleses mais idosos. O de sbado passado seria, segundo os estudiosos, o "par" desse anterior. Contudo, os especialistas dizem que no foi forte o suficiente para liberar toda a energia concentrada pelo choque das placas tectnicas. Uma das evidncias disso  o fato de que o movimento das fissuras na superfcie no  teve a extenso esperada. "Para liberar a tenso que se acumulou desde 1934, seria necessrio que a falha se movesse 12 metros. No sbado, ela s se mexeu de 2 a 4 metros", disse a VEJA o gelogo francs Paul Tapponnier, do Observatrio da Terra de Singapura e um dos autores do estudo. Somente um quarto da antiga falha geolgica teve alguma alterao, o que significa que os outros trs quartos ainda tm potencial para se mover. "H um tremor ainda mais forte e mais prximo da superfcie a caminho, o que  assustador", diz Tapponnier. Outras tragdias mais imediatas esto por vir. A temporada das mones, com fortes chuvas e, com elas, deslizamentos de terra, est prestes a comear. Sem recursos, os nepaleses tero de contar novamente com a ajuda estrangeira. Por sorte, por causa das novas tecnologias de comunicao e de transporte, o Nepal  logo ali. 

A TRAGDIA AINDA NO ACABOU
O terremoto do dia 25, no Nepal, no foi suficiente para liberar toda a energia acumulada entre as placas tectnicas que, h milhes de anos, se chocaram e formaram a Cordilheira do Himalaia
Dos catorze picos mais altos do mundo, oito esto no Nepal. A placa tectnica da ndia se move 4,5 centmetros por ano, entrando por baixo da placa euro-asitica. Esse movimento provoca um enrugamento na superfcie das rochas e uma elevao ainda maior das montanhas nepalesa.
* O encontro entre placas de dimenses continentais provoca uma grande presso nas rochas, at que elas se rompem, liberando energia. 
* Uma vez iniciado o terremoto, ocorrem outras fraturas, com novos tremores de menor intensidade,  medida que as tenses acumuladas so dissipadas. 
* Os tremores secundrios cessam quando a energia restante no  suficiente para romper a rocha. 

Segundo um grupo de cientistas que analisou as fissuras causadas por terremotos h cerca de 700 anos, os abalos ssmicos da semana passada representaram apenas 20% do seu potencial. Isso significa que um novo sismo deve ocorrer nas prximas dcadas.

ESCALA RICHTER
Este mtodo calcula a energia liberada por um abalo ssmico.
8  10: Catastrfico
7  7,9: Desastroso
5,5  6,9: Muito forte
4,9  5,4: Forte
4,4  4,8: Moderado
3,5  4,3: Fraco
0  3,4: Quase imperceptvel

OS TERREMOTOS LETAIS DE GRANDE MAGNITUDE
(escala Richter e total de mortos)
9,5. Chile, 1960. 1600
9,2. Alasca, 1964. 139
9,1. Indonsia, 2004. 230.000 (tsunami)
9,0. Japo, 2011. 18.000 (tsunami)
7,9. Sichuan, China, 2015. De 5000 a 10.000
7,8. Katmandu, Nepal, 2015. De 5000 a 10.000
7,6. Caxemira, Paquisto, 2005. 90.000
7,4. Ir, 1990. 50.000
7,0. Haiti, 2010. 220.000
6,6. Bam, Ir, 2003. 26.000


COM REPORTAGEM DE PAULA PAULI
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6# GERAL 6.5.15

     6#1 GENTE
     6#2 POLCIA  O DESAFIO MAIOR
     6#3 ESPORTE  A LTIMA CHANCE DO BOXE
     6#4 ESPECIAL  T CAINDO MSICA DO CU...

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Daniella De Caprio e Thas Botelho.

ISSO, SIM,  O PARASO
"Ns somos os principais acionistas da Pilartex." Foi com essa profuso de fricativas sibilantes que LETCIA SPILLER gravou uma de suas primeiras cenas na nova novela das 7, em que faz uma empresria rica e paulistana. Carioca que , sofreu para disfarar o sotaque: "Tive de contrair tanto o diafragma que na ltima palavra j estava sem ar", diz. O "s" chiado no  a nica lembrana de casa que ela levou para I Love Paraispolis - inspirada na favela paulistana de mesmo nome. Aquela pulga atrs da orelha em relao aos paulistas tambm veio. Sobre o que pensam da Paraispolis original as dondocas das duas cidades, por exemplo, diz Letcia: "As do Rio esto mais integradas com a favela, mas, como a minha personagem, em So Paulo h muitas que se pudessem jogariam uma bomba naquele lugar". Outras interessantes posies da atriz podem ser vistas na revista VIP.

MAIS HUMOR, POR FAVOR
No papel da lasciva e supervoraz Viva Negra em Vingadores: Era de Ultron, SCARLETT JOHANSSON resolve arrastar o seu ferro para o lado do Incrvel Hulk, que declina da oferta. Um site quis saber dos atores Chris Evans e Jeremy Renner, que vivem o Capito Amrica e o Gavio Arqueiro no filme, o que eles achavam de ter sido desprezados pela herona. Achando graa, responderam que a Viva Negra no deu bola para eles porque era uma aquilo-que-certos-homens-dizem-quando-querem-xingar-uma-mulher. A patrulha urrou na internet e acabou sobrando para MARK RUFFALO, que faz o Hulk. Numa entrevista ao lado de Scarlett, o ator foi metralhado por perguntas do tipo que fazem Cate Blanchett sapatear o Louboutin no tapete vermelho: "Fez regime para o papel?", "Que roupa vai usar no Oscar?". O incrvel Ruffalo comprou a piada, protagonizou  perfeio a estrela vitimada pelo sexismo e fez Scarlett morrer de rir. 

BRINCADEIRINHA, GENTE
Como boa miss, a colombiana PAULINA VEGA quer contribuir para a paz no mundo e, ao ganhar o concurso universal em janeiro, no s recitou direitinho o mantra das coroadas como disse que estaria disposta a ajudar no dilogo entre as Farc e o governo do seu pas. Para sua surpresa, no ms seguinte, os narcoguerrilheiros postaram mensagem no site da organizao dizendo que, sim, tinham todo o interesse em ouvir as opinies de Paulina e aguardavam a confirmao da sua visita. Ela esteve na Colmbia dias atrs, e todo mundo s queria saber daquilo. Vai ou no vai? "Tomei uma deciso inteligente: deixar esse assunto para o presidente", disse, com a graa que s as misses tm. S falta quererem agora que ela recite de cor O Pequeno Prncipe. 

CABEA FRESCA
No, pela milsima vez, JENNIFER ANISTON informa que o seriado Friends no vai voltar. Porque nenhum dos atores quer, porque ele ainda passa nas TVs a cabo e porque ela sempre o-di-ou o corte de cabelo de sua personagem, que de to famoso e copiado vem at com artigo no nome, "The Rachel". "Era muito difcil mant-lo. A cada seis semanas, tinha de refazer o maldito", diz Jen, que acha que aquele volumo na cabea com as pontas entrando no rosto nunca combinou com ela. A cabeleira continua linda, e quem viu a atriz na estreia da amiga COURTENEY COX (a Monica do seriado) como diretora nem desconfia do mtodo que ela diz usar para conseguir to invejvel resultado (prendam a respirao): "Malho e no lavo a cabea. Um pouco de suor funciona como um bom produto. Dou uma modelada com os dedos e fica timo". 


6#2 POLCIA  O DESAFIO MAIOR
Ao assumir a Mar, a polcia do Rio de Janeiro ter de impor a ordem com poucos homens em zona conflagrada  e, de quebra, provar que ainda h futuro para as UPPs.
LESLIE LEITO

     Quando as Unidades de Polcia Pacificadora (UPPs) foram criadas no Rio de Janeiro, em 2008, a meta era ocupar quarenta favelas, formando uma espcie de "cinturo de segurana" em torno de instalaes crticas para a Copa do Mundo. Neste fim de semana, o ltimo trecho do cinturo, o Complexo da Mar, vai enfim receber tropas da PM em reas dominadas pelo trfico. O aglomerado de quinze favelas e 130.000 moradores prximo ao aeroporto internacional e s margens da Linha Vermelha era ocupado desde abril do ano passado pelo Exrcito e pela Marinha. Eles entraram ali s pressas, convocados pela Unio a pedido do ento governador Srgio Cabral em meio a uma onda de ataques de bandidos. O plano era permanecer apenas trs meses. Mas, na falta de policiais para substitu-los, os soldados foram ficando, contra a vontade e sem formao para lidar com um tipo de conflito bem diferente da guerra para a qual haviam sido preparados. Desde ento, estabeleceu-se uma poltica de coexistncia, em que por vezes os soldados at colaboram com os bandidos. Em um ano, apenas 54 armas foram apreendidas, de um arsenal estimado em 500. Moradores sofrem com tiroteios dirios, balas perdidas e agresses de todos os lados. E, embora no haja estatsticas oficiais para o complexo, VEJA contabilizou 29 homicdios nos boletins de ocorrncia. Tal cenrio faz da Mar o maior desafio da claudicante poltica de segurana do Rio. Uma misso dificlima, em que a PM j entra perdendo. 
     Ao contrrio do que seria de supor, a sada das Foras Armadas no  motivada pela chegada de mais homens  polcia. Foi uma deciso unilateral dos militares, desgastados pela insatisfao da tropa e por denncias de conchavos com o trfico. O alto custo da operao  540 milhes de reais, ou 1,2 milho por dia  tambm contou. A gota d'gua, porm, foi a traumtica morte do cabo Michel Mikami, de 21 anos, alvejado em novembro passado pelo fuzil de um traficante. Diante da deciso irrevogvel, a Secretaria de Segurana do Rio, que pretendia protelar a transio para depois da Olimpada de 2016, no teve alternativa a no ser manter no local os mesmos 169 homens que j davam suporte a Exrcito e Marinha. So eles que ficaro no territrio, fazendo apenas patrulhamento, quando as Foras Armadas se retirarem definitivamente. "Vai ser uma operao s de visibilidade mesmo, com carros da PM espalhados em pontos especficos. Sem gente,  no d para fazer muito mais", explica um oficial do Comando de Operaes Especiais. S no ano que vem, s vsperas da Olimpada, o efetivo ser reforado e chegar a 1200 homens.  muito pouco para uma regio que vinha sendo patrulhada por 3000 soldados e, mesmo assim, continuou violenta. A Mar  enclave estratgico para a distribuio de drogas no Rio, por ficar s margens das principais entradas da cidade e da Baa de Guanabara. E, diferentemente das outras reas onde se instalaram UPPs, no  domnio de um nico chefo, mas palco de um conflito de dcadas entre faces criminosas. 
     Sabendo que o local ficar desguarnecido, as gangues j se preparam para intensificar a guerra. "No samos daqui com o Exrcito, no sairemos com a PM.  gato e rato. Vamos para cima", disse a VEJA, na semana passada, um jovem de bermuda e sem camisa que montava guarda com seu fuzil AK-47 em frente a uma banca de drogas no corao da favela. Ele e seus vinte comparsas pareciam bastante  vontade em exibir granadas e pistolas a 100 metros de um posto de observao do Exrcito. Assim que ocupar a rea, a PM vai incluir a Mar entre as regies mais perigosas da cidade, as zonas vermelhas (as verdes so as menos perigosas e as amarelas, as intermedirias). Tal rtulo, porm, no tem efeito prtico a no ser reconhecer que a criminalidade ali est fora de controle. 
     Calejados pelas arbitrariedades do Exrcito  que em um ano prendeu 583 pessoas, a absoluta maioria por desacato  autoridade  e subjugados pelo trfico, muitos moradores se preparam para ir embora. Entre eles est a dona de casa Maria do Socorro de Arajo, de 41 anos, que perdeu dois filhos para a guerra na favela. O primeiro tinha 14 anos em 2004, quando foi atingido por uma bala perdida. O segundo, ex-paraquedista do Exrcito que tocava um lava-jato na favela, tomou um tiro de fuzil em janeiro, em circunstncias ainda no esclarecidas. Tinha 23 anos. "Vou esperar para perder meus netos aqui dentro?", diz Maria do Socorro, que ps a casa  venda e est de mudana para a Zona Oeste da cidade. 
     Para uma poltica que prometia estancar a derrocada na segurana pblica e estabelecer um novo parmetro de civilidade e policiamento nas favelas, o desabafo da dona de casa  mais do que uma nota triste. Equivale ao atestado de um fracasso que se torna cada vez mais difcil de reverter. 


6#3 ESPORTE  A LTIMA CHANCE DO BOXE
Floyd Mayweather e Manny Pacquiao faro a luta mais cara de todos os tempos  mas o que soa como incio de uma era pode ser apenas o derradeiro suspiro.
ALEXANDRE SALVADOR

     H pelo menos dezoito anos, desde que, em 1997, Mike Tyson arrancou um naco da orelha de Evander Holyfield em Las Vegas, no faltam epitfios para bater os pregos no caixo do boxe. Mas como algum de bom-senso pode dizer que a nobre arte morreu se neste sbado, 2, tambm em Las Vegas, acontecer um combate j tratado, como de hbito para resumir os superlativos de luvas, de "a luta do sculo"? O americano Floyd Mayweather, o atual campeo dos meio-mdios, por o cinturo em disputa contra o filipino Manny Pacquiao  combate dos dois maiores nomes do esporte na atualidade e que demorou quase meia dcada para sair do papel. As bolsas alcanam 300 milhes de dlares (60% para Mayweather, 40% para Pacquiao), seis vezes o que foi entregue a Muhammad Ali e Foreman em 1974, no antigo Zaire, atual Repblica Democrtica do Congo. 
     A bilheteria ser de 74 milhes de dlares, com a ressalva de que apenas 1000 dos 16.800 lugares do MGM Grand foram postos  venda, porque o restante ser ocupado por celebridades e apostadores. Os bilhetes mais caros foram vendidos por 7500 dlares. Esgotaram-se em sessenta segundos, pela internet. Os americanos que quiserem ver a luta pela televiso tero de desembolsar 100 dlares no pay-per-view, quase o dobro do usual  no Brasil, com transmisso a partir das 22 horas, a diverso custar 60 reais. O rapper americano 50 Cent est confiante e, como manda o figurino de cifras indecorosas, prometeu apostar 1,6 milho de dlares na vitria de seu compatriota  nem Al Capone teve estmago para tamanha loucura. O chefe da mfia apostou "apenas" 680.000 dlares (em valores atuais) na vitria de Jack Dempsey contra Gene Tunney, em 1927. 
     A avalanche de cifras parece fazer soar para o boxe o gongo de um novo round, mas no  o caso. Mayweather tem 38 anos, Pacquiao est com 36. So veteranos em fim de carreira. Trocaro socos espetacularmente, faro espocar flashes de saudade de quando eram jovens,  o que se imagina para a milionria noite americana, mas eles fazem parte do fim de uma histria, no do comeo. Ou seja: no h outra luta possvel no pugilismo capaz de provocar tanto brua.  a ltima chance de o boxe voltar a respirar, depois de nocauteado pelas bizarrices de Tyson e pela corrupo. A hora no  de todo m. O rival MMA, a modalidade de pancadaria livre que invadiu os ringues em forma de octgono, vive dias de escndalo, com perda de audincia.  
     Houve o doping mal explicado de Anderson Silva, que agora ensaia querer participar da seletiva de tae kwon do da Olimpada do Rio. Na semana passada, Jon Jones fez pior. Provocou um acidente de carro e fugiu, sem socorrer as vtimas. Os dirigentes da modalidade cassaram-lhe o cinturo e a Reebok cancelou o patrocnio. Jones desabou, e com ele a imagem de um torneio, o UFC, que exigiu um longo trabalho de convencimento para provar seriedade.  
     Visto assim, com um adversrio grogue nas cordas, o boxe poderia se aproveitar da passarela aberta por Mayweather e Pacquiao para ganhar flego.  algo que dificilmente ocorrer, no porque no sejam pugilistas fenomenais. O boxe perdeu charme, perdeu histria, j no acelera coraes e mentes. Se existe alguma dvida do que ele representou, convm ver no YouTube o documentrio Quando ramos Reis, premiado com o Oscar em 1997. O filme  um relato poltico, cultural e esportivo da luta entre Ali e Foreman em 1974, vencida pelo maior de todos, aquele que flutuava como um beija-flor e picava como uma abelha, no oitavo assalto, o que o fez retomar o ttulo mundial. Como pugilismo, o embate foi inigualvel. Mas havia muito mais, e o mundo parou para olhar para Kinshasa, ao som de B.B. King e dos dlares de outro King, Don King, o empresrio de cabelos espevitados. No se trata de saudosismo tolo   consta- taco da impossibilidade de algo to violento como o boxe vicejar sem um caldo na sociedade que lhe permita crescer. Como no h,  o caso de se contentar com Mayweather e Pacquiao, o que existe de melhor e nico. 

Floyd Mayweather
(Estados Unidos)
38 anos
41 vitrias (26 por nocaute)
nenhuma derrota

Manny Pacquiao
(Filipinas)
36 anos
57 vitrias (38 por nocaute)
cinco derrotas e dois empates

RECORDES MILIONRIOS
As cifras que envolvem o confronto de sbado sero as maiores da histria do boxe.

BOLSA PARA OS PUGILISTAS
300 milhes de dlares
Diviso: 60% para Mayweather e 40% para Pacquiao

BILHETERIA 
74 milhes de dlares
(somente 1000 dos 16,800 assentos foram comercializados) 

O INGRESSO MAIS BARATO
1500 dlares (valor de face)

O INGRESSO MAIS CARO
350.000 dlares
(preo em sites de revenda)

VENDAS DE PAY-PER-VIEW
(nos Estados Unidos)
Entre 3 milhes e 4 milhes de casas
(valor unitrio: 99 dlares)

BOLSA DA LUTA
ALI X FOREMAN, em 1974
48 milhes de dlares (em valores atualizados)
Diviso: 50% para Ali e 50% para Foreman


6#4 ESPECIAL  T CAINDO MSICA DO CU...
...e filmes, sries, livros, softwares, tudo! A fenomenal capacidade de armazenamento de dados e a crescente velocidade da internet mudaram a maneira como produzimos e consumimos os contedos que nos alimentam.
FILIPE VILICIC E RAQUEL BEER

     As nuvens, por onde pisamos distrados, quase tocando nos astros, sempre foram um lugar para no estar   exceo dos poetas, dos nefelibatas e dos avies. Das nuvens, hoje,  de onde no devemos descer, porque nelas est tudo, mas tudo mesmo  as mais belas canes, os livros, as sries de televiso, os filmes, os softwares, o dinheiro no banco. Nuvem  ou cloud, em ingls   o nome que se d ao conjunto de potentes servidores remotos que armazenam todo o contedo digital  mo. A velocidade de processamento de dados associada ao aumento exponencial da capacidade de guardar informaes mudou para sempre o modo como produzimos e consumimos os alimentos para a alma, para, a sim, termos o direito de caminhar nas nuvens. 
     A histria dessa aventura tecnolgica  jovem demais para ser to espetacular, da seu fascnio. Quando a internet comeou a se popularizar, nos anos 90, ela era uma obra aberta, com poucas certezas e muitas apostas erradas, sabemos hoje. Uma das crenas anunciava um mundo virtual povoado exclusivamente de amadorismo e pirataria. Era assim h vinte anos. Pela rede circulavam pencas de filmes roubados, misturados a pornografia e a um ou outro arquivo particular de gatinhos adorveis. Acreditava-se que a nica forma de achar contedo de qualidade seria ligando a televiso, indo ao cinema ou alugando um VHS, objeto to ancestral quanto a pedra lascada. Cortemos para o presente. Sim, h vdeos de gatos, pornografia e pirataria. Mas a rede nos trouxe tambm o iTunes, o Netflix, o Spotify e, com eles, contedo de excelncia  e legalizado. O que ocorreu entre o amadorismo dos anos 90 e o profissionalismo a que chegamos? A pea-chave foi o avano acelerado da tecnologia atrelada  internet.  o alicerce do mundo on demand (sob demanda), onde todos podem ver o que quiserem, onde estiverem e na hora que escolherem. O homem  o homem e suas circunstncias. 
     Nas ltimas duas dcadas, a velocidade da rede aumentou 19.000%. Hoje assistimos por streaming (sem fazer o download, em um fluxo continuo de dados) a uma srie de qualidade hollywoodiana criada exclusivamente para ser vista on-line. A lista de exemplos  enorme, basta checar as produes do Netflix j indicadas ao Oscar e ganhadoras de Globos de Ouro. Qualquer um passou a poder gravar o mundo ao redor com o smartphone e transmitir o que v em tempo real. Na semana passada, as primeiras imagens do terremoto no Nepal no chegaram pela televiso. Surgiram pelo onipresente Facebook e coladas a aplicativos como o Periscope e o Meerkat, novas redes sociais afeitas ao compartilhamento de vdeos ao vivo. Essas novidades seriam impossveis com a velocidade da internet em seus primrdios. Motivo: demoraria tanto para fazer o upload e reproduzir on-line o arquivo que o vdeo seria visto quadro a quadro, tamanho o engasgo na transmisso. 
     No centro dessa transformao est o streaming. A possibilidade de rodar um arquivo, seja um filme ou uma msica, diretamente da nuvem, no dispositivo on-line que for, abriu novas portas para o mundo virtual. Definiu Ted Sarandos, produtor de filmes que chefia a criao de contedo do Netflix: "Na era da internet, quando as pessoas ouvem falar sobre a existncia de algo que as interessa, esperam ter acesso imediato a esse algo". Uma pesquisa do conglomerado americano de mdia Viacom (dono de canais como MTV e Nickelodeon),  qual VEJA teve acesso com exclusividade, retratou essa nova postura do espectador. Depois de entrevistadas 10.500 pessoas, inclusive no Brasil, o estudo constatou a ascenso do VOD (sigla em ingls para vdeo sob demanda). Um brasileiro tpico tem  disposio cinco dispositivos para ver os vdeos. Filmes e sries so transmitidos no apenas na TV, como em smartphones, tablets, computadores, laptops ou videogames, que do acesso a servios como o Netflix. Sete em dez pessoas com acesso a tecnologias de VOD a utilizam semanalmente. 
     A sensao de controle, de poder comear a ver um episdio de Demolidor, a nova srie sensao do Netflix, na TV, pausar e terminar no tablet no caminho para o trabalho  o cerne do sucesso do VOD. Segundo a Viacom, 51% das pessoas preferem assistir a algo "quando" quiserem em vez de "onde" e "como" escolherem. Em outras palavras, tanto faz se  no cinema, na televiso ou no YouTube, o que se deseja  ter acesso imediato. Indo alm, apesar de 71% ainda terem os canais de TV como principal referncia para descobrir programas, 50% no aceitam mais assumir a postura de espectador passivo.  o indivduo definido como "engajado". Ao mesmo tempo em que v TV, acessa outras plataformas de informao (como o smartphone e o tablet) e as usa para pesquisar o contedo ou compartilhar suas impresses, pelo Facebook, pelo WhatsApp ou pelo site do canal. 
     Disse a VEJA Christian Kurz, vice-presidente da Viacom, que coordenou a pesquisa: "Os aparelhos so apenas veculos de distribuio. Uma grande srie de TV continua a ser uma grande srie de TV, mas agora com a possibilidade de ter sucesso seja por qual tela for. O porm  que o espectador tem de achar onde est o que quer ver". Ou seja, o que se procura ainda  o mesmo, uma histria de qualidade, como as que so produzidas pela Viacom. O que mudou  a forma de criar, distribuir e fazer propaganda. Na construo dos roteiros j se usam algoritmos capazes de identificar preferncias dos espectadores que possam servir de base para elaborar roteiros. Foi como o Netflix chegou  frmula de sucesso de uma de suas principais joias, o drama poltico House of Cards. O software de VOD da empresa acumulou dados de seus mais de 50 milhes de usurios, em quase sessenta pases, para definir que o tema poltico, o ator Kevin Spacey como protagonista e David Fincher como diretor eram elementos certeiros, queridos pelos assinantes. O algoritmo foi matematicamente preciso. 
     A tecnologia de streaming comeou a ascender com a msica, na virada dos anos 2000, e depois com os vdeos, pendurados no YouTube, em 2005. Mas sua trajetria  mais antiga. H estudos sobre como rodar arquivos de vdeos on-line desde os anos 90. Os primeiros testes prticos foram feitos em 1994, na Inglaterra. Um experimento de uma fornecedora de TV a cabo levou contedo on demand de dois canais para 250 residncias de Cambridge. O projeto faliu porque as emissoras envolvidas desistiram de se esforar para criar contedo apenas para um punhado de pessoas (pelos limites tcnicos, no era possvel passar disso). Em razo das dificuldades impostas pela tecnologia, a exemplo do alto custo e da lentido da internet, o streaming no chamou a ateno dos produtores de contedo e, como decorrncia inevitvel e ruim, comeou a vingar um mercado paralelo. O da pirataria. 
     Proliferaram sites clandestinos, principalmente de msica, que ofereciam online, de graa, o que era vendido off-line. Em efeito contnuo, a gerao que nasceu plugada no mais se disps a pagar por produtos que pudessem ser digitalizados. No comeo, eram msicas, games e filmes que levavam dias para ser baixados (por isso, muitos continuaram a pagar off-line para no esperar). Com o aumento da velocidade da rede, o leque de ofertas no parou de crescer. Na nuvem, filmes e msicas competem agora por espao em servidores da web com sites, posts de redes sociais, documentos guardados no Dropbox. E, em vez de fazer o download,  at possvel acessar a pirataria por streaming, em sites como o Popcorn Time, imitao ilegal e popular do Netflix. 
     Ao contrrio do que pensavam empresrios da era pr-internet na virada dos anos 2000, a melhor resposta  pirataria no foram os processos judiciais que produtoras passaram a mover contra hackers. Na maioria sem sucesso, visto que os piratas sumiam no anonimato da internet. O contra-ataque veio no livre mercado, com a criao de servios que comearam a fornecer, gratuitamente ou mediante assinaturas baratssimas, bibliotecas imensas de filmes e msicas de alta qualidade e que no engasgam na hora do play. Quem se lembra de como era ouvir msica antes do iTunes e do Spotify? Ou de juntar a famlia para uma sesso domstica de cinema sem o Netflix ou o Google Play? 
     A gerao que no aceitava pagar comeou ento a fazer concesses. Vale tirar o dinheiro do bolso se o contedo estiver disponvel para um smartphone ou um tablet a qualquer momento, sobretudo se for barato. Os nmeros comprovam o sucesso. A cada minuto so enviadas 300 horas de novos vdeos para o YouTube, com espao cada vez maior para produes profissionais como as do popular canal brasileiro de humor Porta dos Fundos. Nesse caso, em que tudo  de graa, o faturamento do Google (dono do YouTube) e dos produtores vem dos anncios. Nos Estados Unidos, 35% do trfego de internet  dominado pelo Netflix. So pessoas que aceitam pagar mensalmente, ainda que pouco, por contedo bom. 
     Consumidores, distribuidores e produtores que se adaptaram a essa lgica festejam. Mesmo que a pirataria no tenha sido vencida por completo, o que jamais ocorrer, um novo pblico, antes adepto dos arquivos ilegais, aceita pagar. Mas, como sempre h um lado que sai perdendo, uma parcela de artistas se queixa do streaming. O grupo, composto de poucos representantes, mas todos com peso suficiente para causar estardalhao, defende a tese de que os artistas no esto sendo bem pagos. Para lucrar 1260 dlares, segundo clculos das entidades de direitos autorais dos Estados Unidos, um msico precisa vender 457 CDs, ou tocar mais de 1 milho de vezes suas faixas no Spotify. A conta, aparentemente injusta, fez com que estrelas como a americana Taylor Swift se posicionassem contra o streaming. Ocorre, porm, que o faturamento com CDs s  maior para donos de discos de platina, que vendem centenas de milhares de lbuns. E apenas em curto prazo. Bandas menores atingem mais facilmente 1 milho de views do que os 457 CDs. At porque, diferentemente do que ocorre com discos, quando um f ouve uma faixa pela segunda, terceira, centsima vez, o dinheiro de direito autoral continua a cair na conta. O CD pode ser ouvido quantas vezes for que o pagamento permanece nico. Por isso, o Spotify j concede na Europa 13% a mais de valores em direitos autorais do que o iTunes, loja virtual da Apple que se encaixa no modelo antigo, de lbum por lbum, como nas lojas fsicas, ou msica por msica. 
     O elemento comportamental perturbador para os mais velhos  poder ouvir uma msica ou ver um filme sem t-los fisicamente, sem possu-los.  um jogo que vai alm do embate econmico em torno do preo pago pelos servios ou da recompensa aos artistas. Dos rolos de filmes negativos do incio do sculo XX ao streaming de vdeo, dos gramofones ao Spotify, a tecnologia  um espetacular e invisvel apndice  toda novidade  filha de seu tempo, sustentando a informao de que necessitamos. A nuvem digital faz valer, cada vez mais e mais, uma mxima do celebrado ensaio "A obra de arte na poca de sua reprodutibilidade tcnica", do filsofo alemo Walter Benjamin, de 1936: "A obra de arte, por princpio, foi sempre suscetvel de reproduo". Benjamin pensava especialmente no cinema, que mal comeara a falar, na fotografia, mas nada que se compare ao que construiu o filho de um mecnico de automvel com uma cuidadora de crianas, o sueco Daniel Ek, de apenas 32 anos, que inventou o Spotify. No por acaso, o servio nasceu na Sucia, onde 90% das msicas digitais so reproduzidas por streaming. A Sucia  o mundo amanh. No somos donos de nada, topamos pagar, e pagar de novo se for o caso, mas trocamos prateleiras por nuvens de armazenamento para no lotar o smartphone. 

O MUNDO CADA VEZ MAIS RPIDO
Em vinte anos, a velocidade da internet aumentou 19.000%. Vdeos cujo download demorava mais de um dia so hoje baixados em doze minutos e transmitidos a 3 megabits por segundo. Isso permite a veiculao em tempo real (o streaming) pela rede e serviu de alicerce para o surgimento de servios como o Netflix.

1995
Velocidade da internet (mdia mundial): 0,145
Tempo do download de uma msica: 11 minutos e 30 segundos
Tempo do download de um filme de uma hora e meia de durao: 37 horas
O que possibilitou: O surgimento de sites de download de e-books e dos primeiros e-readers.

2000
Velocidade da internet (mdia mundial): 0,512
Tempo do download de uma msica: 3 minutos e 20 segundos
Tempo do download de um filme de uma hora e meia de durao: 10 horas e 30 minutos
O que possibilitou: O compartilhamento rpido de arquivos entre computadores on-line (base para pginas piratas, como o Napster) e a popularizao de lojas virtuais de msica (a exemplo do iTunes).

2005
Velocidade da internet (mdia mundial): 2
Tempo do download de uma msica: 50 segundos
Tempo do download de um filme de uma hora e meia de durao: 2 horas e 36 minutos.
O que possibilitou: O rpido streaming de vdeos no Netflix e em redes sociais, a exemplo do Facebook e do YouTube, e programas on-line de videoconferncia, como o Skype.

2010
Velocidade da internet (mdia mundial): 7
Tempo do download de uma msica: 14 segundos
Tempo do download de um filme de uma hora e meia de durao: 46 minutos
O que possibilitou: As bibliotecas on-line de msica do Spotify, as mensagens instantneas do WhatsApp e o streaming de vdeos de alta qualidade mesmo por sites piratas, como o Popcorn Time.

HOJE
Velocidade da internet (mdia mundial): 28
Tempo do download de uma msica: 3,6 segundos
Tempo do download de um filme de uma hora e meia de durao: 12 minutos
O que possibilita: Qualquer um pode transmitir de seu smartphone um vdeo ao vivo, para o mundo inteiro, com milhares de espectadores, pelos apps Periscope e Meerkat.

O CRESCENTE MERCADO DIGITAL DE MSICA...
NO MUNDO
Faturamento da indstria fonogrfica em 2014: 14,97 bilhes de dlares
46% vendas fsicas
46% vendas digitais [23% STREAMING expanso de 39%]
8% outros

NO BRASIL
Faturamento da indstria fonogrfica em 2014: 581,7 milhes de reais
40,6% vendas fsicas
37,5% vendas digitais [51% STREAMING expanso de 53,6%. Pas onde o crescimento dos servios de streaming foi maior que a mdia global]
21,9% outros

...PAGA MENOS QUE O MERCADO TRADICIONAL PARA OS ARTISTAS
Quantos CDs ou faixas avulsas um artista precisa vender nos Estados Unidos para ganhar 1260 dlares mensais em direitos autorais.
457 CDs
1826 faixas no iTunes
172.206 faixas no Google play (streming)
1.117.021 faixas no Spotify (streaming)
1.260.000 faixas no Deezer (streaming)
4.200.000 faixas do YouTube (streaming)

ELA DISSE NO
A cantora americana TAYLOR SWIFT foi a maior vendedora de CDs e msicas baixadas digitalmente em 2014. Mas, no fim do ano passado, decidiu tirar suas canes de servios de streaming como o Spotify. Disse ela: "Tento manter a mente aberta s coisas, porque acho fundamental ser parte do progresso, mas acho que ainda est de p um debate sobre se isso (streaming)  realmente progresso ou se est levando a palavra 'msica' para fora da indstria da msica".

CHEGOU A ERA DO NOVELAFLIX
     No dia 26 de abril, a Rede Globo comemorou os seus cinquenta anos. A emissora  um caso raro na TV mundial: em um dia de programao, chega a atrair 90 milhes de espectadores  audincia domstica s alcanada por um canal americano na data do Super Bowl, o maior evento da televiso dos Estados Unidos. Mas a Globo tambm tem razo para se preocupar. Como diz sua campanha de aniversrio, o futuro  nebuloso, e ela no est imune s mudanas que a tecnologia impe  indstria da informao e do entretenimento. Por isso, o gigante brasileiro investe para se adaptar ao fenmeno do streaming. 
     Desde 2012 a Globo mantm um servio similar ao Netflix, o Globo.TV+. Ele permite o acesso  programao do canal em diversos dispositivos mveis. H dois pacotes de assinatura: um total, ao preo de 12,90 reais mensais, e outro restrito ao menu de novelas, a 9,90 reais. Nessa experincia, a Globo pde perceber a preferncia dos usurios por sries e folhetins, que podem ganhar mais destaque na segunda verso da plataforma, prevista para o segundo semestre - e sobre a qual h certo mistrio. "Estamos atentos s inovaes, para aproveitar todas as iniciativas", diz Erick Brtas, diretor de estratgia em mdias digitais da Globo. 
     A concorrncia tambm se movimenta. Em maio, a Record pe no mercado o seu servio on demand por assinatura. "Sero cinco pacotes pagos, quatro segmentados por programao e um com a grade completa da Record", diz Antonio Guerreiro, diretor-geral de novas mdias da emissora. Em junho,  a vez de a nanica RedeTV! lanar um aplicativo de streaming, provavelmente gratuito. Aplicativos desse tipo j so realidade no SBT e na Band, que contabilizam 2 milhes de downloads de seus respectivos produtos, ambos gratuitos. O da Band, que leva o nome da emissora, foi lanado h um ano. O TV SBT, h cerca de um ms (Silvio Santos, sempre impagvel, j rasgou elogios no ar  liberdade que o Netflix lhe deu para assistir aos seus programas favoritos - e ganhou uma assinatura vitalcia do servio por isso). "No interessa por qual tela o usurio vai consumir, o que importa  que o contedo seja relevante. O futuro da televiso continua sendo o contedo", diz Fernando Pensado, gerente de interatividade e mobile do SBT.
MARIA CAROLINA MAIA

NA CONTRAMO DA NUVEM
     Em plena era do streaming, que deletou a ideia de "posse fsica" de uma msica - o que se quer ouvir est l, na nuvem, mas no existe mais a propriedade individual, como quando se adquiria um CD -, o empresrio paulistano Jos Roberto Alves Freitas, de 61 anos, chega a parecer algum "virtual". O motivo: ele  dono de aproximadamente 6 milhes de discos. S em sua casa, no Alto de Pinheiros, em So Paulo, Zero, como gosta de ser chamado desde os tempos de colgio, guarda 100.000 LPs. Em um galpo na Vila Leopoldina ficam mais 600.000. O restante se amontoa em enormes caixotes cobertos de lona em outro galpo, na Lapa. O acervo tem de tudo: de msica clssica russa a raridades, como discos autografados por Heitor Villa-Lobos. As gravaes brasileiras, alis, so sua prioridade: "Minha meta  ter tudo o que foi produzido aqui". 
     O empresrio no se define como colecionador  chega a recusar ofertas, mesmo preciosas, se considera que o preo pedido  exorbitante. "Quero fazer uma fonoteca e torn-la acessvel ao pblico", diz ele. Diariamente, catorze estagirios, estudantes de histria, divididos em dois turnos, se revezam para catalogar todo o material. "O que j foi listado, cerca de 270.000 discos, est organizado, pelo nmero do tombo, em prateleiras", explica a biblioteconomista Barbara Mauro, que supervisiona os jovens.  uma tarefa de Ssifo. Cada estagirio cataloga, em mdia, oitenta unidades por dia; se todos trabalhassem de 12 de janeiro a 31 de dezembro, levariam perto de quinze anos para terminar. O problema  que o acervo s aumenta. No ltimo dia 26, Zero adquiriu 4000 LPs, e calcula que mais de 1 milho de discos estejam a caminho de um de seus galpes. A maior parte do que consegue  fruto de doao, mas ele tambm conta com "olheiros" em vrios pases, que no param de brotar desde que o brasileiro apareceu com destaque no New York Times. 
     O empresrio, que atuava na rea de transportes, comeou a colecionar LPs por influncia da me. O primeiro que adquiriu, aos 11 anos, foi Roberto Carlos Canta para a Juventude. At o fim deste ano, Zero quer iniciar a construo de mais um galpo. "Meu acervo ser til para as prximas geraes. A msica mais fcil de desaparecer  a digital. O vinil  muito resistente. Mesmo que o teto deste galpo desabe, ainda assim restaro LPs intactos." Desde os 16 anos, Zero faz terapia. "Pergunto  minha analista se o hobby virou doena. At agora, ela diz que no", brinca ele.
FERNANDA ALLEGRETTI

COM REPORTAGEM DE GABRIELA NERI
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7# ARTES E ESPETCULOS 6.5.15

     7#1 TELEVISO  TEMPO DE PANELAO
     7#2 CINEMA  A COMDIA HUMANA
     7#3 CINEMA  UMA MENINA E O MUNDO
     7#4 VEJA RECOMENDA
     7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#6 J.R. GUZZO  TRISTEZA SEM FIM

7#1 TELEVISO  TEMPO DE PANELAO
A conversa chegou  cozinha e est cada vez melhor: depois de dominarem a TV paga, os shows culinrios fincaram bandeira no horrio nobre dos canais abertos.
MARCELO MARTHE

     O assassinato de camares causou celeuma na gravao do programa culinrio MasterChef, na ltima tera-feira. Em uma prova que garantiria a imunidade de um dos aspirantes a cozinheiro da segunda temporada da gincana, que estrear no prximo dia 19 na Band, o desafio era pescar os crustceos vivos dentro de um aqurio e mat-los para preparar um prato tailands. Em sua preleo, o chef Henrique Fogaa teve um rasgo de correo poltica. Recomendou que os participantes tirassem a vida dos camares com carinho, colocando-os no gelo para minimizar o sofrimento. "Arranca logo a cabea deles", reagiu seu colega de jri e malvado predileto do programa, o chef francs Erick Jacquin, fazendo caretas. "Eu mato com gosto: enfio faca na cabea, boto o bicho no forno ainda vivo   como se faz  francesa. A gente quer comer bem ou fazer disso aqui um velrrio de bichinho de estimacion?", comentou Jacquin aps a gravao, com seu sotaque tpico. Estranhas coisas que se vem num programa assim: por um instante, a conversa sobre tcnica culinria descamba para um barraco que expe a hipocrisia de certas posies da biotica. A televiso dinamitou o velho chavo de que conversa relevante no chega  cozinha: como demonstram a fartura e a variedade de tons dos programas de gastronomia, todas as conversas agora passam, sim, pela cozinha. 
     Basta zapear no controle remoto para constatar: a TV vive a era do panelao. Entre 2012 e o ano passado, segundo o Ibope, o nmero de atraes do gnero saltou de 46 para 57  aumento de mais de 20% em dois anos. Se todas as exibies e reprises de programas de culinria ao longo do ano fossem somadas, elas preencheriam 86 dias. Ainda de acordo com o Ibope, um em cada cinco brasileiros declara ver esse tipo de programa com frequncia. O espectador nem precisa de pesquisa para constatar que h tempos a TV paga vem sofrendo uma invaso galopante dos paneleiros. Canais como Discovery Home & Health, TLC e GNT devotam  comida uma parte substancial de sua programao. No fim do ano passado, desembarcou no pas  por enquanto, s no SKY  um smbolo desse vcio, o canal americano Food Network, que oferece 24 horas por dia de programas de gastronomia. Sediado em Nova York, o canal  reflexo de um fenmeno comportamental que se instalou nos Estados Unidos: a transformao da gastronomia em vertente fervilhante da cultura pop. 
     J se detectam os sinais inequvocos de que o Brasil vai pelo mesmo caminho. As gincanas de chefs romperam o nicho da TV paga para ganhar espao nas redes abertas. No se fala apenas dos quadros do programa de Ana Maria Braga nas manhs da Globo. Como ocorreu em pases como Estados Unidos e Inglaterra, a gastronomia agora finca sua bandeira no horrio nobre. O MasterChef  um dos formatos responsveis por essa ascenso global, alis  rendeu bons ndices de audincia e repercusso notvel para a Band no ano passado. No SBT, o Cozinha sob Presso  verso nacional do Hells Kitchen, apresentado pelo chef e pitbull escocs Gordon Ramsay  foi eclipsado pelo rival da Band em sua primeira temporada. Mas eis que a guerra por uma audincia faminta acaba de ter um lance de efeito: a emissora de Silvio Santos deu um jeito de estrear a nova edio do programa mais cedo que a gincana da Band, e em horrio mais quente, a faixa das 21h30 de sbado. Coincidncia ou no, a Band acelerou as gravaes para lanar a segunda temporada do MasterChef. A Record tambm est correndo para arrancar um naco desse fil. Recentemente, contratou o americano Buddy Valastro, astro de produes de forte apelo entre as mulheres no Discovery Home & Health, Cake Boss e Batalha dos Confeiteiros, para comandar uma verso nacional desse ltimo, com estreia provvel em agosto. 
     A importao de um apresentador estrangeiro  Valastro busca scios para abrir em So Paulo a primeira filial de sua rede de confeitarias fora dos Estados Unidos  fornece uma ideia da temperatura desse caldo. Mas o melhor indicativo de sua fora  a emergncia de um "sistema de estrelas" da TV culinria  brasileira (confira ao longo da reportagem). Para alm de um Erick Jacquin,  a TV paga que vem consolidando nos ltimos anos uma constelao de artistas-cozinheiros. O centro irradiador de novos rostos  o GNT. Sete das dez principais atraes do canal so sobre comida. Se antigamente o monoplio era de ingleses como Jamie Oliver e Nigella Lawson, hoje a balana pende para os frutos nativos, da cozinha natureba de Bela Gil, filha do cantor e ex-ministro Gilberto Gil, ao francs de alma carioca Claude Troisgros. 
     O caso do GNT ilustra as razes da onipresena do filo gastronmico. A piada que corre no mercado de TV  que tem mais gente querendo fazer do que assistir a tais atraes. Do ponto de vista dos executivos da TV, programas do gnero so um verdadeiro "mamo com acar". Gincanas como Master-Chef so superprodues caras, mas representam uma exceo: o custo mdio de programas culinrios fica na faixa de 100.000 reais por hora, um quinto da mdia das sries de fico. Para gravar um programa como o de Bela Gil, bastam um cenrio simples  em muitos episdios,  a cozinha da casa de seus pais, Gil e Flora  e amigos e parentes convidados para arriscar umas garfadas  da atriz Fernanda Torres  irm Preta Gil. Atraes assim so ideais para preencher a cota de programao nacional obrigatria por lei. Mas a entra o fato milagroso: ao contrrio do que sugere a piada, h, sim, espectadores para a culinria. "Alm de baratas, essas atraes fazem muito sucesso com o pblico e os anunciantes. So um negcio dos sonhos", diz Marcello Braga, da produtora Endemol. 
     Os prstimos da culinria so conhecidos desde os primrdios da TV. Nos anos 60, a americana Julia Child lanou as bases do tradicional programa de passo a passo na cozinha  frmula reproduzida no Brasil pela cozinheira Oflia Anunciato (1924-1998). Desde ento, a culinria se expandiu muito alm do horrio da manh e se transmutou em uma mirade de subgneros. Alguns traos atravessam o tempo: o pblico continua a ser essencialmente feminino e busca "programas famlia", capazes de unir pais e filhos sob o mesmo estmulo fisiolgico  a convocao do estmago. Ainda assim, o escopo do que seja familiar se ampliou: so os conflitos no seio da parentada italiana, e no a harmonia, que encantam os fs de Buddy Valastro em Cake Boss. Mas o exemplo do prprio Valastro demonstra que a culinria na TV tambm  a celebrao da individualidade e do empreendedorismo. "A comida reflete aquilo que voc . O espectador busca esses programas para ampliar seu repertrio e dar tempero extra  vida", diz Beatriz Mello, diretora de pesquisas do Discovery. 
     O culto ao amadorismo  o elemento em alta no momento, dos programas sobre gente que rala no comando de food trucks (ou "food truques") ao reality show que flagra Adriane Galisteu e o marido cozinhando, novidade do Discovery Home & Health. "Ver amadores na cozinha cria laos imediatos", diz Braga, da Endemol. Em outra ponta das tendncias est a dessacralizao da figura do chef. Sujeitar cozinheiros profissionais s agruras que eles infligem aos leigos  um mote explorado no Iron Chef, do Food Network. s vezes, um simples camaro ajuda a fazer um medalho descer do salto. Nas seletivas do novo MasterChef, um candidato apresentou um prato feito com camaro de cheiro suspeito. Erick Jacquin e Henrique Fogaa negaram-se a prov-lo. Paola Carosella encarou o desafio  e foi parar no hospital. "Pus tudo para fora e voltei ao trabalho no dia seguinte", diz ela. No universo em expanso da gastronomia na TV, o camaro pode ir de vtima a algoz. 

TRIO SEM TERNURA
Nas gravaes do MasterChef, da Band, os trs jurados - o paulista Henrique Fogaa, o francs Erick Jacquin e a argentina Paola Carosella - acham tempo para diverses amenas. "A gente sai direto juntos. O Jacquin  muito festeiro", diz a apresentadora Ana Paula Padro, integrada a essa turma da pesada. A "qumica" dos jurados explica o xito da verso nacional da gincana inglesa. Fogaa  o rebelde instintivo, Paola faz a professorinha blase e Jacquin, claro,  a besta-fera que apimenta a receita. "As pessoas falam, mas nunca bati em ningum. Se o fizer, serr pelo bem", diz o chef de 122 quilos, com seus "erres" do Vale do Loire. 

A MUSA DA MAIONESE DE TOFU
Na infncia, Bela Gil achava engraado ver o pai - o cantor Gilberto Gil - comer arroz integral com palitinhos. Aos 15 anos, seguiu a mesma trilha. "Descobri o poder dos alimentos", diz. No Bela Cozinha, do GNT, a baiana de 27 anos ensina lies de nutrio e culinria vegetariana, macrobitica e ayurvdica que aprendeu em Nova York. A cara dos convidados ao encarar iguarias como churrasquinho de melancia e maionese de tofu virou item de humor na internet. Suas dicas tm algo das letras qunticas do Gil: "Carne vermelha  muito yang, a energia masculina do Sol, agressiva. O acar  o yin, a energia feminina e frgil da Lua".

TIO MARRAVILHA
O pedigree de Claude Troisgros precede a fama na TV: ele  filho de um dos criadores da nouvelle cuisine francesa.  frente do Que Marravilha! ou como jurado da gincana The Taste, ambos do GNT, seu trunfo  a imagem do chef estrelado que no tem medo de se humilhar. O emotivo Troisgros amarga rejeies bravas ao reinventar pratos de famlia e nas suas tentativas de fazer gente chata comer. A interao com o matre Batista  outro achado. "A gente at dana forr junta. Eu me diverrte fazendo televisioon", diz. 

LEO QUE RUGE NO MORDE
Com sua juba loira e cara de mau, o chef paulistano Carlos Bertolazzi cumpre os requisitos visuais para seu posto: ele  o carrasco do Cozinha sob Presso, verso do SBT do Hell's Kitchen, comandado pelo escocs Gordon Ramsay. De perto, porm, o leo  manso. "Fora da cozinha, sou um cara normal", diz. Ele prefere a ironia  violncia - e guarda suas mordidas para a hora certa. "Pode ser que um dia eu abra restaurantes no mundo inteiro, como o Jamie Oliver. Mas s farei isso quando estiver seguro", planeja.

O BOLEIRO BOLADO
Aps causar tumulto em evento num shopping paulistano no ano passado, o americano Buddy Valastro escolheu o Brasil como alvo de sua expanso internacional. O astro de Cake Boss, do Discovery, fechou com a Record para fazer uma verso nacional da gincana Batalha dos Confeiteiros, em agosto. At l, pretende abrir por aqui uma filial de sua confeitaria. "Chorei ao saber que inspiro os brasileiros", diz o descendente de italianos de Nova Jersey, que lembra os tipos da srie Famlia Soprano.

O PEIXINHO QUE VIROU PEIXO
Quem via o modelo e ator Rodrigo Hilbert s como um peixinho loiro no aqurio matrimonial da mulher linda e mais famosa, a apresentadora Fernanda Lima, pagou a lngua. No Tempero de Famlia, do GNT, ele faz sucesso combinando jeito rstico e fofura. "Beleza no  dom, mas condio gentica. Sou tmido", diz. Hilbert pesca robalos e colhe mandioca, mas poupa as fs de cenas fortes: aps anunciar que ia matar uma galinha para faz-la ao molho pardo, surgiu, na cena seguinte, dando tapinhas na ave depenada. "Fui criado numa chcara. E l  assim", diz.

AI, OUE DOURA
A brasiliense Danielle Nocce converteu frustraes domsticas em compulso por doces. "Minha me me proibia de fazer pratos salgados", diz. Mais tarde, o marido, Paulo Cuenca, tornou-se crtico de seus cupcakes. O casal criou um canal no YouTube com suas discusses aucaradas. O programa I Could Kill for Dessert ("Eu Mataria por uma Sobremesa")  a aposta nacional do canal americano Food Network. Danielle jura que regula calorias: "Como, no mximo, trs doces por dia".


7#2 CINEMA  A COMDIA HUMANA
Com O Pequeno Quinquin, o diretor Bruno Dumont radicaliza sua alegoria sobre a bestialidade e o isolamento. Quem conseguir embarcar poder ter uma bela experincia.
ISABELA BOSCOV

     O Pequeno Quinquin (P'tit Quinquin, Frana, 2014), j em cartaz no pas,  um dos filmes mais desconcertantes, imprevisveis, indecifrveis e talvez incmodos que algum ter a oportunidade de ver. E, no entanto, no  improvvel que parte da plateia desenvolva por ele uma sria atrao, ou sinta s vezes que acaba de cair em uma correnteza de emoo. Em uma sinopse, esta minissrie reunida em filme, com trs horas e vinte minutos de projeo, no parece singular: em um vilarejo da costa noroeste francesa, Quinquin, sua namoradinha Eve e seus amiguinhos se envolvem em pequenas aventuras e tm a curiosidade atiada por uma srie de crimes bizarros, que sero incansavelmente investigados pelo comandante Van der Weyden e pelo tenente Carpentier  algo bem na linha do clssico filme francs com crianas, como A Guerra dos Botes, casado a uma trama do inspetor Clouseau de Peter Sellers. 
     Mas de cara este trabalho do cineasta Bruno Dumont j comea a divergir das fontes tradicionais. Os crimes so grotescos: primeiro a mulher de um fazendeiro e depois um operrio aparecem aos pedaos, enfiados dentro de vacas. A coisa vai progredir para um cadver de mulher amarrado a um bote e uma adolescente devorada por porcos. Muitos dos atores tm algum problema mental ou defeito fsico  o excelente Alane Delhaye, que faz Quinquin, tem a face esquerda reconstruda; o soberbo Bernard Pruvost, o inspetor Van der Weyden,  um compndio de tiques faciais e corporais. Quando Quinquin e seus amigos brigam com meninos rivais, no  brincadeira inocente: eles despejam xingamentos racistas contra os filhos de imigrantes rabes e africanos, ou ridicularizam homossexuais. E os elementos de comdia  o av que pe a mesa atirando pratos e copos nela, a mania de Carpentier (Philippe Jore) de dirigir o carro como se estivesse numa pista de provas, o padre e o sacristo que tm acesso de bobeira numa missa fnebre  so to arbitrrios que no se sabe o que fazer deles.  seguro afirmar que, diante de tal deslocamento, o espectador est na mo de suas reaes epidrmicas muito mais do que de suas respostas racionais. 
     A palavra "comdia", alis,  o proverbial elefante na sala em Quinquin.  como comdia que o filme tem sido em geral alardeado, mas o que Dumont parece fazer aqui na maior parte do tempo  desafiar a plateia a rir do grotesco, do disforme, do caricato  e ento confront-la com as razes pelas quais est ou no achando tudo isso engraado. Ou, dada a compaixo que ele sempre demonstrou em seus dramas durssimos sobre a bestialidade que est mais ou menos prxima da superfcie em cada homem, como A Humanidade, talvez o projeto de Dumont seja essencialmente filosfico, e generoso: ele primeiro faz a plateia rir do ridculo e do nonsense para aos poucos revelar a ela quanto de tristeza, de aspirao, de desejo e de belo h sob essa roupa inadequada com que somos obrigados a nos apresentar ao mundo  e quo definitivamente essa roupa pode, sim, esconder o que vai sob ela. O padre e o sacristo riem porque a jovem que canta uma msica pop na missa fnebre e o organista que a acompanha so de uma incompetncia hilariante; mas ambos esto, na verdade, transportados pelo que julgam ser a beleza de sua msica, no caso do organista, e pelo sonho de acontecer, no caso da cantora. Van der Weyden e Carpentier so dois trapalhes, mas com o tempo adivinham-se as suas reservas profundas de sentimento. Quinquin xinga quem no merece ser xingado, mas demonstra considerao genuna para com Eve, seu av frgil, seu tio que mal consegue andar sem tombar; seu mundo  apenas tacanho demais para que ele entenda que pode estender essa considerao aos que imagina serem diferentes de si. 
     Na ltima parte (so quatro), a imensa beleza plstica de que Dumont  capaz vence tudo o mais. E, quando ele fixa a cmera no rosto de seus personagens e estes olham para a lente sedentos por alcanar quem est do outro lado e mostrar-se alm de sua aparncia, os espectadores que porventura tenham conseguido estbelecer alguma empatia com o filme ganham, em retribuio, uma das experincias mais tocantes que  possvel ter em uma sala de cinema. 


7#3 CINEMA  UMA MENINA E O MUNDO
Em Garotas, uma irresistvel jornada de autodescoberta.

     Marieme (Karidja Tour) tem 16 anos, trs irms menores de que cuidar, um irmo mais velho de quem morre de medo e uma me que est sempre trabalhando. O cenrio  uma banlieue, as periferias de Paris onde se concentram os imigrantes rabes ou, neste caso, africanos  mas, embora seja exemplar da segregao comum em qualquer cidade europeia, no se trata de um cenrio de decrepitude urbana. Marieme tem tambm notas baixas, o que pode ou no ter a ver com suas atribuies domsticas, mas  por causa de uma discusso com a professora acerca de seu futuro que, amuada, ela topa o convite de trs garotas para dar um rol. Fily, Adiatou e Lady  especialmente Lady (Assa Sylla)  so briguentas, barulhentas, alegres, provocantes, independentes, ociosas, intimidadoras, acolhedoras. E, ao adotar a nova amiga, o trio d forma a uma insatisfao que sempre esteve l: Marieme no quer a  pecha de frequentar uma escola para alunos atrasados, no quer ser faxineira como a me nem a menina bem-comportada que o irmo exige. No quer, na vida adulta, fazer o que j est fazendo agora  cuidar de casa e famlia sem outra perspectiva. Marieme quer mais, e  de sua jornada de autodescoberta, repleta de lombadas e valetas, que trata o cativante Garotas (Bande de Filles, Frana, 2014), j em cartaz no pas. 
     Do Cndido de Voltaire ao Grandes Esperanas de Charles Dickens e ao Harry Potter de J.K. Rowling, o Bildungsroman, ou romance de formao,  uma forma literria e tambm cinematogrfica consagrada, e um dos muitos aspectos que tornam Garotas to especial  a maneira como a diretora Cline Sciamma (de Tomboy) combina essa estrutura a um protagonista rarssimo no cinema europeu  uma garota negra  e a um estilo ntimo, caloroso, fluido de filmar. No  raro que, pelo simples jeito de enquadrar suas personagens, Cline torne o filme irresistvel. Mas ela tem outro s na manga ainda: Karidja Tour, dona de uma pureza e de uma sensibilidade dramtica que, preservadas, podem lev-la a um lugar singular no cinema.  temeridade fazer previses sobre algum to jovem. Mas  impossvel no desejar a Marieme, e a Karidja, que encontre um caminho. 
ISABELA BOSCOV


7#4 VEJA RECOMENDA
DISCOS
THE MAGIC WHIP, BLUR (WARNER)
 Dois anos atrs, o quarteto ingls aproveitou a brecha do cancelamento de um show no Japo para iniciar as gravaes de seu novo disco  o primeiro de material indito em doze anos. Os msicos se trancaram num estdio em Hong Kong por cinco dias para esboar algumas canes. As gravaes permaneceram inditas at que o guitarrista Graham Coxon (que, ao lado do cantor Damon Albarn, representa a fora criativa do Blur) chamou Stephen Street, produtor dos melhores discos do grupo, para dar uma cara ao material. O resultado  The Magic Whip, que soa como uma continuao natural dos trabalhos do Blur. A sonoridade chique da banda, expoente do britpop (a exploso de bandas de rock inglesas dos anos 90), conversa com as experincias atuais de seus integrantes, que tm se arriscado no folk, na msica eletrnica e at na pera. Se Lonesome Street e Go Out remetem ao Blur dos primeiros anos, canes como Ice Cream Man, Ghost Ship e Pyongyang apontam novos caminhos sonoros.  um Blur com flertes com msica eletrnica, reggae e at Kate Bush. Um retorno sem cheiro de naftalina.

DUETS: RE-WORKING THE CATALOGUE, VAN MORRISON (SONY Music)
 O disco de duetos tornou-se uma estratgia gasta para cantores do passado se apresentarem s novas geraes. Mas o cantor e compositor irlands Van Morrison aderiu ao gnero sem fazer concesses. Os convidados do seu Duets tm, todos, pelo menos o mnimo de identificao com o artista. A nova gerao  representada somente por Michael Bubl (esplndido em Real Real Gone) e Joss Stone (menos exagerada do que de costume em Wild Honey). A escalao inclui ainda os cantores de soul music Mavis Staples e Bobby Womack (talvez naquela que tenha sido sua ltima gravao), o cantor e guitarrista Mark Knopler (brilhante em Irish Heartbeat) e Steve Winwood. Embora Van Morrison centre foras principalmente nas suas produes da dcada de 70, seu perodo mais criativo, no h escolhas fceis  por exemplo, Moondance, um de seus hinos, ficou de fora. Nascido h 69 anos em Belfast, Van Morrison engendrou um estilo muito particular.  um irlands fazendo msica negra americana, com elementos de blues, Jazz, rhythm'n'blues e msica celta. O vozeiro de dcadas passadas falha vez ou outra em Duets. O bom gosto, no entanto, permanece.

DVD
LUTHER - A PRIMEIRA TEMPORADA (INGLATERRA, 2010. PARIS)
 No papel do inteligente, obstinado e pouco afeito s regras inspetor John Luther, o maravilhoso Idris Elba explora atributos que o tornam cotadssimo para ser o primeiro James Bond negro, assim que Daniel Craig aposentar sua licena para matar: elegncia inata, autoridade natural, grande presena fsica, alergia a figuras de comando e uma veia pronunciada de perigo. Nestes seis episdios inaugurais (a srie ter j sua quarta temporada neste ano na TV inglesa), Luther est sob a mira de seus chefes e da Corregedoria, j que no deu explicao convincente para o fato de um serial killer pedfilo ter cado do alto de um prdio enquanto ele o interrogava. Encontra-se tambm em um estado emocional particularmente instvel: embora sua ex-mulher (Indira Varma) j tenha se casado de novo, ele no consegue desapegar-se dela. Logo estar ainda danando um intrincado tango com Alice (a tima Ruth Wilson), que matou seus pais sem deixar um s rastro de evidncia e se faz de vtima para o mundo  mas no para Luther, a quem, por provocao, ela confessa o crime, sabendo que no h nenhuma atitude que ele possa tomar.

LIVRO
O ROSTO DE UM OUTRO, DE KOBO ABE (TRADUO DE LEIKO GOTODA; COSACNAIFY; 288 PGINAS; 36,90 REAIS)
 Em um terrvel acidente em seu laboratrio, um cientista  desfigurado. Com a face sempre coberta com bandagens, ele perde a mulher amada, que sente repulsa por sua figura grotesca. Mas o cientista ento se dedica a fazer uma mscara capaz de substituir seu rosto, trabalho que vai consumir muito tempo e pacincia. Quando afinal est terminada, essa mscara parece capaz de subjugar a personalidade do homem que a usa. Essas linhas gerais do enredo quase sugerem um filme B de fico cientfica. Mas a narrativa do japons Kobo Abe (1924-1993) vai por outro caminho: uma densa explorao psicolgica do personagem, que d seu testemunho, em primeira pessoa, em uma srie de cadernos de notas. Abe  uma figura central do modernismo japons. Aventurou- se tambm pelo cinema  inclusive como codiretor, ao lado de Hiroshi Teshigahara, de um filme baseado em O Rosto de um Outro. Como A Metamorfose, de Franz Kafka, autor com quem Abe costuma ser comparado, este  um romance sobre perda de identidade.

CINEMA
3 CORAES (3 COEURS, FRANA/ALEMANHA/BLGICA, 2014. J EM CARTAZ NO PAS)
 Marc (Benot Poelvoorde) perde o trem para Paris e, sem saber o que fazer, pede ajuda a uma desconhecida. Sylvie (Charlotte Gainsbourg) e Marc, ento, caminham pelas ruas noite adentro  e apaixonam-se, e marcam um encontro para breve em Paris. Mas Marc se atrasa, passa mal de to nervoso e, quando chega ao encontro, Sylvie j foi embora. Logo ela estar mais longe ainda: muda-se para os Estados Unidos com o marido, a quem ia largar. Eis que Sophie (Chiara Mastroianni), a irm de Sylvie, se atrapalha com a contabilidade do antiqurio que elas tocavam em conjunto com a me (Catherine Deneuve, me de Chiara tambm na vida civil). Calha de ser Marc a ajud-la  e eles se apaixonam, e marcam o casamento. Poucos dias antes da data, Marc descobre que  Sylvie a irm de Sophie. Sem coragem para contar a verdade, segue adiante, mas  inevitvel que ele e Sylvie voltem a se encontrar um dia. No  romance que o diretor Benot Jacquot, de Adeus, Minha Rainha, tem em mente aqui:  o tringulo amoroso como uma escolha impossvel entre paixo e amor, entre aventura e segurana  ideia reforada pela msica ameaadora que frisa cenas que poderiam parecer banais. 


7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS

FICO
1- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
2- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito
3- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO
4- Simplesmente Acontece. Cecelia Ahern. NOVO CONCEITO 
5- Divergente. Veronica Roth. ROCCO 
6- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
7- Convergente. Veronica Roth. ROCCO 
8- Insurgente. Veronica Roth. ROCCO 
9- Cinderela Pop. Paula Pimenta. GALERA RECORD 
10- Cinquenta Tons Mais Escuros. E.L. James. INTRNSECA 

NO FICO
1- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS
2- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO 
3- Nada a Perder 3. Edir Macedo. PLANETA 
4- Fala, Galvo. Galvo Bueno e Ingo Ostrovsky. GLOBO 
5- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
6- Meu Universo Particular. Frederico Elboni. BENVIR
7- Elis Regina  Nada Ser Como Antes. Julio Maria. MASTER BOOKS 
8- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA 
9- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA 
10- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
3- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
4- Gerao de Valor. Flvio Augusto da Silva.  SEXTANTE
5- O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA
6- O Cdigo da Inteligncia. Augusto Cury. SEXTANTE 
7- O Poder da Escolha. Zbia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
8- O Livro do Bem. Ariane Freitas e Jessica Grecco. GUTENBERG
9- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE
10- De Volta ao Mosteiro. James Hunter. SEXTANTE


7#6 J.R. GUZZO  TRISTEZA SEM FIM
     Mas que vejo eu a...
     Que quadro d'amarguras! (...)
     Que ttricas figuras!
     Que cena infame e vil...
     Castro Alves

     Eis a o mundo, mais uma vez, repetindo a histria  no como farsa, segundo est previsto nas cincias no exatas, mas como tragdia em estado puro. Em pleno sculo XXI, mais ou menos 150 anos depois da eliminao do trfico de escravos pelos sete mares, descobre-se que estamos de volta ao tempo do navio negreiro e das suas infmias, que Castro Alves denunciou para sempre num dos poemas mais emocionantes da literatura brasileira. As "ttricas figuras" so esses milhares de africanos e outros amaldioados da Terra que se espremem como cabeas de gado nos pores de navios em runa, aos quais nenhum armador confiaria o transporte de sua carga; tentam cruzar o Mar Mediterrneo na esperana de ser jogados numa praia qualquer da Itlia, da Espanha ou de algum outro pas da Europa, onde pretendem entrar como imigrantes clandestinos. A "cena infame e vil", cada vez mais frequente,  a crueldade dos naufrgios que os despacham regularmente para a morte no fundo do mar. No ltimo deles, alguns dias atrs, entre o litoral da Lbia e a costa da Siclia, morreram 800. S nos quatro primeiros meses deste ano os novos negreiros do Mediterrneo j mataram perto de 2000 homens, mulheres e crianas. At o fim de 2015 o nmero talvez chegue a 30.000. 
     A situao de 2015, comparada com a de 1850, consegue ser ainda pior em certas coisas. Os operadores do trfico de escravos cuidavam para que os seus navios no fossem a pique durante a travessia do Atlntico. Seu negcio era entregar nos portos de chegada do Brasil, Estados Unidos e Caribe pelo menos o grosso do carregamento embarcado na frica; no vendiam gente morta. Os passageiros, do seu lado, tinham para onde ir depois do desembarque  e sabiam que seus novos donos iriam lhes dar pelo menos o suficiente para no morrerem de fome. Alm disso, no precisavam pagar a passagem. Os chefes do trfico humano de hoje, depois de receberem at 5000 dlares por cabea embarcada, esto pouco ligando se a mercadoria morre pelo caminho. Os viajantes, caso cheguem vivos a algum lugar, no tm para onde ir. Acabam em campos de refugiados, onde ficam esperando, em barracas ou contineres, que alguma autoridade decida o seu destino. So cada vez mais numerosos. Foram cerca de 50.000 em 2013. Neste ano podem passar dos 200.000. 
     Os nufragos do Mediterrneo continuam vindo, na maior parte, da mesma frica, acrescidos, hoje, de infelizes que tentam escapar de outros infernos do quarto mundo. Fogem, todos eles, da misria em estgio terminal. So as vtimas dirias, tambm, das guerras tribais, religiosas e civis que destroem seus pases, e dos choques entre as quadrilhas de gngsteres que os governam  e, alm disso, roubam toda a ajuda internacional que eventualmente lhes  enviada, em dinheiro, alimentos ou remdios. Ultimamente vm sendo degolados, metralhados e torturados por esquadres de assassinos que invadiram sua terra e se apresentam como "militantes muulmanos"; as diplomacias terceiro-mundistas acham que  preciso entender as razes desses carrascos. A populao dos pases europeus no gosta dos fugitivos  e por que haveria de gostar, se no  responsvel por sua desgraa e no acha justo pagar por sua acolhida? Os pases islmicos, enfim, que tecnicamente so seus irmos, acham que todos eles podem ir para o raio que os parta. 
     As desgraas no acabam a; h pela frente, ainda, os defensores que tm no Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, ora chefiado pelo prncipe Zeid Ra'ad Al-Hussein, Ph.D. por Cambridge, antigo campeo de rgbi e flor da nobreza da Jordnia.  tambm um craque do pensamento politicamente correto e moralmente safado. O doutor Zeid, por ocasio do ltimo naufrgio, declarou que a culpa de tudo  das "polticas migratrias cnicas" dos pases da Europa. Seus governos, acusou, querem transformar o Mediterrneo num "grande cemitrio". Disse que lhes falta "coragem" e que cedem a movimentos de "direita" contra a imigrao. O navio naufragado saiu da Lbia. O comandante  cidado da Tunsia. Seu imediato  da Sria. As vtimas estavam tentando fugir do governo criminoso de seus pases. Mas o prncipe Zeid diz que os culpados so os europeus  os nicos que, bem ou mal, querendo ou no, fazem alguma coisa pelos refugiados. Com advogados assim, no h esperana possvel. Fica apenas um imenso cansao  e uma tristeza sem fim. 

